7/24/2009

Editora Ática lança literatura em quadrinhos

Imagens de Luiz Gê

A Editora Ática está lançando quatro adaptações literárias em quadrinhos. Todas são de romances brasileiros. A programação da editora é lançar as obras ao longo do ano. A lista inclui "O Cortiço", de Aluísio de Azevedo (1857-1913), "O Guarani", de José de Alencar (1829-1877), "Memórias de um Sargento de Milícias", de Manuel Antônio de Almeida (1830-1861) e "Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto (1881-1922). Segundo a editora, os trabalhos serão produzidos por duplas:

"O Cortiço" - Texto de Ivan Jaf e desenhos de Rodrigo Rosa
"O Guarani" - Texto de Inav Jaf e desenhos de Luiz Gê
"Memórias de um Sargento de Milícias" - Texto de Ivan Jaf e desenhos de Tiago Lacerda
"Triste Fim de Policarpo Quaresma" - Texto de Luiz Antonio Aguiar e desenhos de Cesar Lobo

A coleção marca também a adiada volta de Luiz Gê às histórias em quadrinhos. O autor foi um dos principais nomes dos quadrinhos na década de 1980, à frente de revistas como a "Circo".

7/09/2009

Ronaldinho ganha versão em desenho animado

O jogador Ronaldinho Gaúcho, que virou personagem de Maurício de Sousa nos quadrinhos, ganhará também uma versão como desenho animado. A iniciativa é fruto de uma parceria entre a MSP e a GIG Itália. O primeiro capítulo de uma série de 52 episódios, com duração de 15 minutos, já está sendo produzido pelo italiano Giuliano Giovanni.
Inicialmente, todas as histórias serão baseadas nas aventuras do personagem dos quadrinhos. Os idealizadores do projeto esperam lançar a animação do craque em 3 de outubro deste ano, num festival em Cannes.
O personagem Ronaldinho Gaúcho foi criado por Maurício em 2005 e em menos de um ano ganhou publicações em mais de 20 países e centenas de produtos infantis lançados na Europa.

7/07/2009

50 anos de carreira do pai da Turma da Mônica

Para comemorar os 50 anos de carreira do pai da Turma da Mônica, uma exposição está relembrando a trajetória de sucesso do autor, desde as primeiras tiras de jornal até ele se tornar um dos autores de quadrinhos mais respeitados do mundo.

A exposição é dividida em duas partes. A primeira é uma verdadeira viagem no tempo, partindo do começo simples no escritório de Mauricio na Rua Barão de Limeira e mostrando, década a década, a evolução de seus personagens, dos seus traços e da sua empresa.

Os fãs podem conferir inclusive a primeira tira de Bidu e Franjinha, que originou esta carreira de sucesso.

A segunda parte da mostra é focada no lado artista de Mauricio de Sousa. Através da coleção de quadros e esculturas em que ele homenageia grandes mestres das artes, estão expostas releituras de Leonardo da Vinci, Rodin, Michelangelo, Degas, Cézanne, Caravaggio, além de algumas outras surpresas.

Cartunista retrata a decadência dos super-heróis






Super-homem barrigudo e encurvado, Homem-Aranha precisando de fralda geriátrica, Robin empurrando Batman em uma cadeira-de-rodas, Mulher Maravilha fumante, Thor beberrão e Aquaman vendendo iscas, dentre outras imagens. O cartunista italiano Donald Soffritti decidiu retratar estes e outros super-heróis em uma hipotética decadência. O livro 'Super-heróis: a Decadência' traz o futuro imaginado por Soffriti para os ídolos dos quadrinhos e dos cinemas.










7/06/2009

ENTREVISTA: Eduardo Manzano

Eduardo Manzano é um daqueles raros artistas em que a sensibilidade flui espontaneamente. Através de sua visão rica em detalhes, seus textos caíram no gosto do público e sua legião de fãs pelo Brasil cresce rapidamente. Com um bom gosto invejável, um estilo pessoal refinado e com traços marcantes, Manzano vem se destacando cada vez mais no cenário underground. Nessa entrevista concedida ao amigo Carlos Henry para o nosso blog, ele fala sobre como começou a gostar de quadrinhos, sobre seus trabalhos, suas influências, seus projetos, sobre o cenário das HQs, dentre outros assuntos. Confira o bate-papo:

Por: Carlos Henry

Você tomou contato com as HQs através de uma coleção dos seus pais. O que eles liam?
Isso foi quando eu tinha seis anos e comecei a aprender a ler. Meus pais compravam gibis para eles e para mim. Geralmente era algo da Disney, Turma da Mônica ou Asterix. Meu gostava muito de Diabolic, Tex e Ziraldo. Eu lia tudo também e a partir daí, nunca mais parei.

Mudou alguma coisa hoje em dia?
Hoje em dia eles lêem muito pouco. O estilo agora é mais livros.

Pelo que fiquei sabendo, seu avô também trouxe uma certa influência para você...
É verdade. Meu maior incentivador mesmo foi o meu avô, que me deu a maior força nos desenhos desde o início. Por ele ser uma pessoa muito culta, tomei gosto pela literatura. Pena tê-lo perdido muito cedo.

Nos Fanzines eu Sou Uma Bosta Respeitada!

Qual a opinião deles sobre seus trabalhos?
Eles gostam e curtem muito meus trabalhos. Meu pai acompanha mais de perto, já que minha mãe não mora conosco. Ele curte os zines. Outro dia demos boas risadas quando ele disse: “ Você dá diversas entrevistas e é respeitado nos fanzines, mas nas editoras você não é bosta nenhuma”. Pelo menos em algum lugar eu sou uma bosta respeitada.

Seu estilo era meio cartum e você decidiu deixá-lo de lado para se dedicar a outro traço. Por que?
Basicamente decidi deixar de lado o estilo cartum e procurar algo mais complexo, pela necessidade de desenvolvimento artístico e de expressão. Isso se deu após tomar contato com os trabalhos do Alan Moore e Neil Gaiman. A procura por um traço próprio também pesou muito. Mas uma vez ou outra faço trabalhos com outros estilos.

Por exemplo...
Em meus trabalhos para a editora que exerço como free lancer, faço ilustrações infantis.

Você já publicou em zines de Portugal, Itália, Uruguai e Estados Unidos. Quais as exigências que eles fazem?
No exterior, publiquei quando eu mesmo enviei o material para as publicações de lá ou quando eles entraram em contato comigo após terem visto algum material publicado nos zines daqui.

Como foi a receptividade dos seus trabalhos nesses países?
A repercussão foi restrita ao público underground. Eles têm uma mentalidade um pouco mais profissional que a nossa. Lá os fanzines são sérios e respeitados. Trabalham com divulgação e tem até cooperativas e pequenas editoras que publicam os zines para os autores. Em alguns países no qual meu trabalho foi publicado, os editores me escreveram dizendo que receberam diversas cartas elogiando as minhas HQs. Inclusive elas deveriam sair em alguma coletânea com melhor material gráfico.

Essas HQs enviadas aos Estados Unidos não tem nada de super herói...
De jeito nenhum. São minhas HQs realistas mesmo.

Não é Porque Temos Liberdade de Expressão Que Devemos Encher os Fanzines de Porcarias!
Muitos autores têm feito HQs filosóficas mas de conteúdo vazio. O que pode ser feito para mudar este gênero e evoluir com qualidade?
Esta é uma questão delicada, já que os zines estão abertos a todo tipo de trabalho, seja bom ou não. No caso das HQs filosóficas, existem pessoas que desenvolvem um trabalho muito legal, a exemplo do Edgard Franco, Gazy Andraus, Rosemário, Al Greco e Erika Saheki. Porém, muitos usam-se da máxima que fazem trabalhos “subjetivos” e infestam os zines com todo tipo de porcaria possível. Acho que cabe aos leitores peneirar os garatujistas, dando espaço a quem realmente tem algo a dizer.

Quais os melhores e piores deste gênero?
Os maus exemplos estão aí e são muitos. É só conferir nos zines. Não é porque temos liberdade de expressão que vamos atolar os fanzines com porcarias. Bom senso nunca é demais. Mas tem muita gente boa também, além dos que já citei, poderia incluir o Luciano Freiberger, Nuno Nisa, Luiz Alves e Diogo Henrique.

Como tem sido a receptividade dos leitores ao seu trabalho?
Tem sido maravilhoso. Desde que lancei o meu novo estilo, tenho participado de muitos zines e dado diversas entrevistas. Hoje já posso dizer que tenho um nome respeitado dentro do circuito. Tenho feito muitos amigos também, pois em primeiro lugar vem a amizade a honestidade mútua.

Qual a importância dos fanzines no meio underground?
Tenho pregado uma evolução de nossos zines, tenho divulgado um trabalho de conscientização dos editores, visando uma melhora nas publicações e consequentemente, aumentar sua sobrevivência. No meu trabalho, tenho a preocupação de levar ao leitor um material com argumentos fortes e bons desenhos, o que tem ganho o respeito de todos que lêem. Só tenho a agradecer as cartas que recebo com apoio.

Muitos editores argumentam que os zines têm que ser mau xerocados, bagunçados e descompromissados. Qual sua opinião?
Não concordo. Os zines devem procurar uma evolução dentro dos seus parâmetros e no que se delimita underground. Devemos levar em consideração nossa realidade econômica e pensar que gastar dinheiro com algo descompromissado e mau feito é pura utopia. Com excessão é claro, daqueles que possam custear tal aventura por mero passatempo, o que creio não é o caso de 99% de nós. Devemos crescer e mostrarmos nossos trabalhos para puxar cada vez mais pessoas para nosso lado. Assim sendo, podemos abrir os olhos dos culturalmente alienados a mudar aquela velha história dos zines brasileiros: Lançam 2 ou 3 números e param.
Quais quadrinhistas lhe influenciaram?
Procuro mostrar uma identidade própria nas minhas HQs, mas como minhas maiores influências, posso citar nos desenhos Dave Gibbons, Boris Vallejo, Emir Ribeiro, Watson Portella, Brian Bolland e Magnus. Nos argumentos, Allan Moore, Neil Gaiman, Will Eisner, Roy Thomas, Pat Mills e Hernandez Brothers.

Dá para ganhar dinheiro com seus traços?
Eu tenho meu trabalho, mas também ganho algum dinheiro como free-lancer para alguma editora ilustrando material de bandas e dando aulas de desenho.

Como tem visto o cenário atual da HQ nacional?
Enquanto imperar na cabeça dos leitor que o material importado é melhor que o nosso, pouca coisa irá mudar. Temos ótimos artistas aqui, melhores até que os de lá. Deve haver entre editores e artistas, uma discussão que traga resultados. Acho também que os zines podem conseguir essa união.









6/02/2009

ENTREVISTA: Luis Augusto


O baiano Luis Augusto é um daqueles caras super persistentes com seus objetivos. Batalhador incansável em prol das causas justas, descobriu a arte para levar adiante seus projetos. Através dos seus personagens deficientes, ele descobriu os quadrinhos para mostrar que é possível chegar a algum lugar e ao mesmo tempo, contribuir para uma visão mais justa para os problemas que existem no planeta. Começou sua carreira ainda menino ao lado de Ziraldo. Fez ilustrações em Nova Iorque e desenho animado em São Paulo. Criou em seguida o Fala Menino! Um Projeto que envolve quadrinhos com crianças excepcionais. Nessa excelente entrevista, ele nos fala mais sobre esses e outros assuntos interessantes. Seus livros do Fala Menino, estão sendo adotados por várias escolas, que os utilizam para ajudar na educação das crianças. Isso nos prova que as HQs podem contribuir para gerar interesse pela leitura, para difundir a história de uma nação ou até mesmo para auxiliar na formação de um vocabulário amplo. Afinal, os quadrinhos possuem tantas e tantas possibilidades a serem exploradas...

Por: Alex Sampaio

Quem é Luis Augusto?
Sou baiano, arquiteto, escritor, cartunista e educador. Um monte de coisa.

Como surgiu o desejo de trabalhar com desenhos?
Minha primeira experiência com desenhos foi no início de 1996, quando participei do clipe da Gal Costa e Caetano Veloso para a música do filme Tieta do Agreste.


Queremos um mundo diferente, mas ensinamos as crianças a serem iguais!


Como nasceram seus personagens especiais?
Surgiram da vontade de estabelecer um contato com a infância e da relação da criança com a diferença.

De que forma?
A partir da perspectiva da criança, você pode falar de tudo. Esquecemos que podemos aprender com elas Queremos um mundo diferente, mas ensinamos as crianças a serem iguais.

São vários personagens. Fale um pouco deles:
O Lucas tem quase 10 anos, é mudo e adora jogar bola e fazer amigos. A Carolina paquera o Lucas escancaradamente. Mirella é surda. O Rafael é cego e o Mateus é autista.

Você foi o primeiro desenhista brasileiro a lançar um livro protagonizado por crianças deficientes. Explica isso:
A publicação que conta a história sobre pequenos diferentes se chama Lucas e foi lançada para educadores amigos das crianças.


A partir da perspectiva da criança, você pode falar de tudo!


Quem apoiou o projeto?
O apoio veio do UNICEF e Novos Negócios, editado pela Bureau.

Outros livros virão?
Claro! Este é o primeiro de uma série que enfoca a deficiência como uma coisa que, logicamente não é desejada, mas que pode ser superada.


Meus quadrinhos enfocam a deficiência como uma coisa que, logicamente não é desejada, mas que pode ser superada!


Como você aborda isso nas histórias?
Se há momentos de melancolia nas historinhas, elas são sempre colocadas no tempo passado.
Suas HQs procuram mostrar as crianças diferentes de maneira bem igualitária. É sempre assim?
Procuro fugir do tom piegas e trato as crianças de maneira normal, que brincam, paqueram, fazem barulho como toda criança.

Como surgiu a iniciativa dos desenhos para TV?
Esse projeto começou em 2003 com o patrocínio da Lei Rouanet. A TV Cultura abraçou a idéia e colocou a nível nacional.

E a produção, como se deu?
A produção foi feita toda na Bahia. O roteiro é meu, baseado nas tiras que circularam ou circulam no nosso jornal A Tarde, de Salvador.

De que maneira você produziu os desenhos?
Tudo foi baseado aqui em Salvador. Fiz tudo através de story boards, desde os cenários a animação, nos estúdios da Olhar Filmes. A direção geral coube a Luis e Adriano Dias.


Tive o patrocínio da Lei Rouanet e A TV Cultura abraçou a idéia colocando meus desenhos animados a nível nacional!


O Ministério da Justiça criou um selo para classificar os desenhos para crianças. Que você acha disso?
Acredito que o que se produz hoje é mais consciente do que no passado. Tinha mais violência nos desenhos do Pepe Legal que hoje. A coisa é mais comercial hoje em dia. A industria do cigarro pagava para que Fred e Wilma fumasse. Hoje isso não existe.

Quantos episódios já foram produzidos?
Os onze primeiros já foram concluídos. Ao todo serão dezoito. Inclusive eles estão disponíveis no site do youtube.com.

As dublagens dos desenhos também foram feitas na Bahia?
Sim! Nós utilizamos vozes de crianças de verdade na dublagem.

E os quadrinhos pararam?
Continuou fazendo tiras. O contrato com os jornais exige isso.

Quando os quadrinhos apelam

Por: Tom*

Com direito a "happy-end" melodramático misturado a lágrimas e um último abraço em sua amada Lois Lane, desse modo concluíram a saga do super-herói mais bem elaborado das estórias em quadrinhos.
Super-Homem foi criado em 1938 por Jerry Siegel e Joe Shuster durante a Era de Ouro dos quadrinhos e de lá para cá pouca coisa se modificou, tanto no "design" do personagem (roupas, cores) ou na sua performance – e não poderia ter sido diferente : Super-Homem sempre foi perfeito.
E é por conhecermos sua trajetória, o jogo de cintura para acatar novos parceiros na luta contra o mal, seu desmedido amor por Metrópolis e o carinho por Lois Lane que ouso proferir : a edição em capa preta veiculada há vários anos atrás (originalmente publicada em sete partes nos EUA e compilada aqui no Brasil pela Abril Jovem numa edição especial única sob o título A MORTE DE SUPER-HOMEM*) é um fiasco !
Ou melhor : um eficiente golpe de publicidade cujo resultado foi um balde de água fria em milhões de aficionados pelo herói. Um nocaute, sem revanche.
Se puxassem pela imaginação (leia-se , criatividade) encontrariam métodos menos apelativos de chamar a atenção para o herói como ocorreu à reviravolta de Batman (envelhecido e sem a parceria de Rabin, morto em combate)* e o casamento do Fantasma* após um longo e cansativo noivado com Diana Palmer.
Se o objetivo era vender revistas haveria opções como :
a) Casar o Super com Lois Lane numa bela edição de luxo (já fizeram isso?);
b) Como ele não envelhece (ou envelhece pouco), trocar Lois Lane por outra gata – uma daquelas maravilhosas mutantes , por exemplo – já que Lois envelheceria;
c) Um filho do Super-Homem através de Lois Lane. Obviamente nesse caso, até poder-se-ia aceitar a morte do herói. O filho prosseguiria a saga do pai já que ninguém suporta a canastrona da Supermoça ou os debilóides Superboy* e Supercão.
Vamos agora aos "furos" da edição capenga :
1) Os sangramentos pelo corpo do Super-Homem : os seus cortes cicatrizam-se instantaneamente;
2) Se ele tivesse de morrer teria que ser vítima da tão badalada kriptonita – seu único ponto fraco;
3) A criação do praticamente indestrutível "Apocalipse" que assassina o herói : quem é? Qual o motivo de tanto ódio? De onde vem toda a sua força?
4) Os argumentos são banais : há um massacre inútil de heróis.
Agora, pra não dizer que estou exagerando, a capa é de excelente qualidade gráfica ainda que num formato maior ganhasse mais impacto (álbum, por exemplo, como se faz na Europa).
Por outro lado isso não é motivo para ficar preocupado. É claro, que depois disso você já deve ter esbarrado na banca com edições com os seguintes títulos : "O retorno de Super-Homem" ou "Super-Homem" ressuscita ". Kriptonita neles!
Notas :
* A Morte de Super-Homem (veiculada na última quinzena de novembro de 1993 pelo Abril Jovem S.A, argumento de Louise Simonson, desenhos de Jon Bogdanove e arte-final de Dennis Janke).
*Batman, O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, publicada em 1989 pela DC Comics.
*Fantasma , o espírito que anda (ou The Phantom), sugiro que assistam ao filme em que o herói é interpretado por um ator assumidamente gay, he, he.
*A respeito do Superboy faço aqui uma pequena restrição ao seriado Smallville interpretado pelo ator novato Tom Wellig (interpretando Clark na juventude) de quase um metro e noventa de altura e olhar doce : deveriam explorar mais o corpo do rapaz que só apareceu sem camisa em dois episódios.

* editor do Tom Zine, Poesias & Afins

5/19/2009

Criada Gibiteca de Fortaleza

A criação de uma Gibiteca em Fortaleza sempre foi o sonho de todos que produzem ou apenas lêem quadrinhos na capital cearense. Por sua importância, foi o tema da segunda edição publicada pela Seqüencial, em 25 de julho de 2006, ainda quando tudo não passava de uma demanda em discussão no âmbito do Orçamento Participativo da Prefeitura. Hoje, passados quase três anos, o sonho tornou-se realidade dentro do projeto de ampliação da Biblioteca Municipal Dolor Barreira, reinaugurada dia 30 de abril. Nela se encontra a Gibiteca de Fortaleza!

O espaço conta hoje com um acervo operacional de 3.476 gibis de várias editoras, divididos por gêneros. O leitor vai encontrar uma sessão infantil com Luluzinha, Turma da Mônica, e afins; outra com os chamados quadrinhos para adultos, incluindo clássicos como "Watchmen" e "V de Vingança"; tem mangás, publicações underground e algumas de teor histórico; assim como obras de Lourenço Mutarelli e Robert Crumb. Nada mau para começar a brincadeira.

O processo de aquisição de títulos é lento, uma vez que só pode acontecer através de edital público. Desta fase de implementação também fazem parte as discussões públicas promovidas na Gibiteca, reunindo na maioria desenhistas e roteiristas de quadrinhos, estudiosos da área, produtores culturais e leitores do gênero.

5/04/2009

UMA BOFETADA NA ESPERANÇA

Por: Alex Sampaio*

Dos bons tempos, só restam lembranças. Um exagero? Talvez! Há uma sutil, mas fundamental diferença entre as publicações de quadrinhos dos Anos de Ouro e as atuais. A começar pelos personagens marcantes que perderam suas revistas e não são mais publicados.

De toda forma, para o aficionado, resta o sentimento ao sentimentalismo. O conflito interior é maior quando se perde a publicação do herói preferido. É como se fosse um relacionamento de pai e filho. Sem os famosos dogmas, a realidade do leitor é bem simplória, pois para quem acompanha a história do seu personagem e sua existência, perdê-lo é como se todo um contexto pessoal desabasse no intricado conflito pessoal, num simbólico exemplo dessa relação. “ Por que me abandonaste?”.

O que mais vemos a algumas décadas, são verdadeiras explosões de cancelamentos de publicações e o leitor se sente órfão dessa inusitada incompetência editorial. Conforme o tempo passa, nos perguntamos quem são nossos dirigentes que tanto se equivocam nos planejamentos editoriais? A pergunta talvez seja apenas retórica. Há entre o leitor e o editor um tal entrelaçamento que entendemos como uma nova esperança de futuros acertos.

O que nos incomoda como leitor, é que não temos a liberdade de podermos influenciar no que é bom e o que é ruim, pois nossa vontade não prevalece na escolha do mercado imediatista brasileiro. E nesse contexto, a angústia supera o consolo e assim se vive sucessivamente na linha de publicações e sua alternância de afeto e falta.

No convívio do leitor com seus personagens, prevalece uma relação bilateral. É como se fosse um casamento sem data para acabar. E pelos complicados meandros dessa relação, percebe-se perfeitamente que na fase conjuntural em que vivemos, um retorno as origens dos bons e velhos heróis do faroeste, as impagáveis aventuras dos super-heróis que já caíram no esquecimento e tantos personagens infantis que não temos mais na memória, jamais serão publicados, pois não têm como cair no gosto popular pela falta de mídia, de uma vasta visibilidade junto ao público leitor.

Chega-se a conclusão, que vivemos a mercê de um livro sem competência, sem alternância, sem diálogo, compreensão, apoio e persistência. Restou uma bofetada na esperança.

*Alex Sampaio é colecionador de gibis, editor do zine Made in Quadrinhos e colunista de diversos sites na Internet.

ENTREVISTA: Roberto Guedes



O criador do selo Fire Comics, Roberto Guedes, fala dos seus personagens, do início da sua carreira, do contato com editoras, da aceitação dos leitores do seu trabalho e também dos seus planos para futuro, inclusive da criação de novos heróis, nessa sensacional entrevista ao nosso blog.
Por: Alex Sampaio

Antes de mais nada, é bom que os leitores conheçam um pouco sobre Roberto Guedes. Fale sobre você...
Bem, meus primeiros trabalhos foram quadrinhos de humor editados nas revistas Papa-Anjo e Udigrudi das editoras Ninja e Phenix, daqui de São Paulo. Isso aconteceu por volta de 1988. Editei também vários fanzines, tais como: Status Quo Comics, Tira Quente, Clássicos Piratas e o mais popular O Status Comics. A partir de 1992, passei a lançar personagens de minha autoria, Meteoro e Os Protetores em revistas próprias e também O devastador, A Protetora, Dr. Fantástico e Slady em Força Máxima. E por aí, vai...

MAU MAIOR ORGULHO FOI TER COLOCADO 1000 EXEMPLARES EM CIRCULAÇÃO EM 1995 DA REVISTA OS PROTETORES!

Qual a reação dos leitores com essas iniciativas?
Os heróis obtiveram uma boa aceitação no meio underground e por isso fui convidado a participar do debate sobre super-heróis realizado na 2º Conaqui em 1994, juntamente com feras como Ota (Mad) e o desenhista Marcelo Campos. Em 1995 criei o selo Fire Comics com a proposta de redefinir meu universo de super heróis, bem como de melhorar a parte gráfica e alcançar novos leitores.

Como surgiu o interesse pelos desenhos e consequentemente os quadrinhos?
Desde criança eu gostava de passar para o papel os personagens que via na TV. O Tarzan de Ron Eli ou o faroeste de Bonanza, foram minhas primeiras Hqs, embora na época eu não tivesse noção disso. O interesse pelos comics começou mesmo quando eu li um gibi do Príncipe Submarino em que este brigava com Hércules e com o Capitão Marvel. A partir daí, eu fiquei irremediavelmente fissurado em histórias em quadrinhos, principalmente do Universo Marvel.

E os roteiros... de onde vêm as inspirações?
Difícil dizer. Sempre gostei de escrever. Em 81 ganhei um concurso escolar de redação e em 84 escrevi algumas peças de teatro para o colégio. Tenho facilidade para desenvolver enredos, mas tudo de uma forma muito simples. Não sou filósofo social como o Frank Miller, nem tampouco faço “histórias cabeças” como Alan Moore. Creio não ter essas qualidades.

UM EDITOR PICARETA PROPÔS PUBLICAR O METEORO COMO UM MESTRE EM ARTES MARCIAIS. ELE QUERIA DESMORALIZAR O MEU PERSONAGEM PREFERIDO!

Fale um pouco sobre Os Protetores:
Eu criei Os Protetores por volta de 1983. Naquela época eu já me considerava um “expert” em quadrinhos e decidi que era hora de criar meus próprios personagens numa linguagem inspirada nas aventuras Marvel dos anos 60, porém, com toques de modernidade e devidamente adaptadas à realidade brasileira. O Estrela Negra e o Montanha não eram muito diferentes do que são hoje. Somente o Furacão mudou um pouco de lá para cá. Na época eu o batizei de Psi-Boy, pois não possuía poderes telepáticos. Em 92, após lançar Meteoro, Devastador e Protetora pelo selo Status Comics, acabou chegando a vez dos Protetores, que afinal de contas havia sido criado antes de todos os outros. Os desenhos foram feitos por João Prado ( hoje Joe Prado da revista Ufo-Team). Com o advento da Fire Comics, justiça foi feita e o grupo de heróis passou a ser o primeiro título do meu universo. A revista foi lançada em setembro de 1995, com arte de Reginaldo Borges e Cal, com uma bela produção gráfica e com mais de 1000 exemplares impressos. Um grande orgulho para todos nós.

E o gênero super herói, por que o estilo mais popular americano o influenciou?
É o tipo da coisa que não se explica muito bem. Quando você tem 10 anos e considera seu pai o “homem mais forte do mundo”, o apelo dos super heróis lhe fascina. Os uniformes, as cores e principalmente as histórias produzidas por Stan Lee e cia... como não me emocionar com o Hulk, O Aranha ou Homem de Ferro? Além disso, sou um eterno otimista! Para mim, o BEM há sempre de vencer o MAL.

Como todo entrevistador de artista nacional, uma pergunta não poderia faltar: Você já procurou alguma editora para mostrar seus trabalhos?
Procurei e fui procurado e, o Meteoro foi o protagonista nas duas ocasiões. Na primeira, na Phenix que chegou a produzir a história. Porém, acabou não lançando. Na segunda, o editor queria publicar o Meteoro, mas com várias mudanças no herói. Queria transformá-lo em um faixa preta em artes marciais e com vários recalques. Além disso, suas aventuras teriam que possuir muito sangue e mulheres peladas. Para finalizar, não queria remunerar o trabalho. Um tremendo picareta.

O que falta para o quadrinho nacional difundir mais pelo país?
Editores com “cabeças abertas”. Infelizmente as editoras estão cheias de reacionários que não sabem nada de quadrinhos e com opiniões já formadas sobre todas as coisas. Dizem que super herói é coisa de americano, mas deixam nossos desenhistas fazerem “catecismos”, quadrinhos baseados em RPG e Mangá. E nossa imprensa “especializada” também contribui para esse marasmo. Enquanto essa dor de cotovelo perdurar, continuaremos pequenos.

NOS ANOS 70 FORAM OS HISPÂNICOS, NOS 80 OS INGLESES. AGORA CHEGOU A NOSSA VEZ !


Existe futuro para o artista brasileiro em nosso país ou será que teremos sempre que bater às portas de editoras americanas?
Creio que o futuro já chegou! O fato de se publicar desenhos através de grandes editoras já prova isso. Só espero que não exijam que os desenhistas “clonem” o estilo de Jim Lee, como se é obrigado a fazer nos Estados Unidos. Nos anos 70 houve um êxodo dos hispânicos e nos 80, dos ingleses. Agora é a nossa vez.

Tem planos para outros heróis do seu selo?
Sem dúvida. Temos planos para o Slady, Protetores, Meteoro e Devastador, além de uma cambada de geniais super-caras.

E a aceitação dos heróis do seu selo... como anda a receptividade dos leitores?
Pelas cartas que recebemos já dá para se ter uma idéia. O Slady surpreendeu à todos por causa da temática científica e pelo apelo medieval. Os Protetores ganham pelo carisma e o Meteoro já virou uma coqueluche e virou o xodó da turma.

Suas considerações finais:
Gosto muito do seu blog, que sempre tem conseguido superar as expectativas e dou meus parabéns pelo seu primeiro esforço. Agradeço pelo espaço de poder falar um pouco sobre o nosso trabalho. Espero que outros artistas tenham essa oportunidade.

Entrevista publicada em 1990, período em que o Made in Quadrinhos saia em papel.

4/08/2009

ENTREVISTA: Sidney de Carvalho

Sidney Carvalho é um desses caras bem determinados, que buscam objetivos sempre. Seu interesse por quadrinhos começou na década de 70 e, de lá para cá, a vocação sempre esteve aflorando junto com seus conhecimentos. Vários prêmios e Menção Honrosas foram conquistados. Através do seu zine Miuzine, seus personagens estão ficando conhecidos no mundo underground. Nesta entrevista ao nosso blog, ele fala sobre esses assuntos, seus projetos e sobre a sua relação com a HQ de um modo geral.

Por: Alex Sampaio

Quem é Sidney Carvalho?
Nasci em Salvador em 02 de junho de 1969. Sou geminiano autêntico, daqueles bem falantes. Adoro rock e apesar de baiano, sou gremista doente.

Como surgiu os Miudins?
Em 1999, tive a idéia de fazer tiras com crianças, mas fugindo do padrão Mônica. Buscava algo diferente, já que na maioria das tiras do gênero, as crianças são bonitinhas e bem alimentadas como o Charlie Brawn, Luluzinha, Pimentinha etc. Decidi inverter tudo.

A década de 70 foi a melhor fase do Mauricio de Sousa na minha opinião!
De que forma?
Resolvi fazer tiras com crianças pobres, na maioria negras, misturando o humor infantil e o humor político social.

Como começou esse interesse por quadrinhos?
Na infância. Lá pelos anos 70 e início dos 80.Lia muito Disney, Hanna Barbera, Mauricio de Sousa e mais tarde, Marvel e DC. Naquele começo o Mauricio foi a minha grande referência, isso ali pelo final dos anos 70, quando seus desenhos deram um salto incrível de qualidade e que para mim, foi sua melhor fase. Na minha opinião ele deve muito ao Jayme Cortez, seu diretor de arte na época e responsável pelo avanço estético nas HQs da Turma da Mônica.

A Maioria das tiras infantis são de crianças bonitinhas e bem alimentadas. Busquei fugir desse padrão!

Você já faz HQ profissional?
Trabalho no Estúdio Cedraz, desenhando a Turma do Xaxado.

Como é trabalhar com o Cedraz?
É muito gratificante trabalhar com ele. Cedraz fala sério no momento de seriedade e na hora da descontração ele brinca bastante. É como se fosse o paizão dos quadrinhistas baianos. Sempre dá força aos artistas contemporâneos, inclusive aos trabalhos individuais dos membros da sua equipe.

Que tem lido ultimamente?
Tenho lido HQ de humor, infantil e cena política.

Tem alguma influência no meio artístico?
Tenho influências do Mauricio de Sousa, Ziraldo, Ademir Pontes ( Estúdio Ely Barbosa ), Edgard Vasquez, Dick Brawne, Angeli e Robert Crumb.

Como surgiu o Miuzine?
O Miuzine surgiu em 2000 devido a necessidade de fazer um trabalho só para os Miudins. Alguns fanzineiros me incentivavam e então a idéia deslanchou e eu resolvi encarar.

Que acha dos fanzines como meio de divulgação independente?
Importantíssimo, principalmente para o quadrinhista iniciante. Ajuda a divulgar o seu trabalho. Ganha-se experiência. Suas HQs são avaliadas pelos leitores, zineiros e artistas experientes.

Quais foram seus primeiros trabalhos?
Comecei em 1986 desenhando o favelado Baiano em parceria com o Gonçalo Jr, que editava na época o fanzine baiano Quadrinhos Magazine. Naquele período, o Bruguelo era o parceiro do Baiano, que me serviu de base temática para desenvolver os Miudins anos depois.
A base dos meus roteiros vem da minha infância na periferia de Salvador!

Fale um pouco sobre seus personagens::
O Bruguelo é um garoto jornaleiro, muito inteligente e contestador. O Toninho é esfomeado. O Balango adora futebol e é muito travesso. O Chiboca vende picolé, é muito mal humorado e gosta de uma boa briga. A Gilmara é romântica e adora novela. A Rosinete, apesar de pobre, é muito esnobe. O Adelmo, é feio, convencido e metido a galã.

Cheguei a mandar vários desenhos para os editores, mas não deu em nada!

Qual a base dos seus roteiros?
Tenho como inspiração a minha infância na periferia, local onde vivo até hoje. Além disso, vejo TV e leio bastante para sempre ter novas idéias.

Já teve a oportunidade de contatar algum editor para mostrar seus trabalhos?
Cheguei a mandar vários desenhos para o Estúdio do Mauricio de Sousa, mas não deu em nada. No ano passado enviei muitas tiras para a revista Calvin & Cia e não recebi resposta.

Como surgiu a oportunidade de trabalhar com o Cedraz?
Conheci o Cedraz em 84, quando fizemos um curso de desenho animado. Eu tinha uns 15 anos na época. Passei a fazer algumas colaborações para ele, desenhando tiras e HQs. Em 97, ao se aposentar, o Cedraz decidiu criar um Estúdio de quadrinhos e surgiu o convite para trabalhar com ele.
Como vê o mercado de quadrinhos nacional?
As editoras apostam sempre nos enlatados, sendo os japoneses a bola da vez atualmente. Acho até louvável a iniciativa da Escala abrindo espaço para artistas brasileiros, mas ainda é pouco. Predomina a mentalidade de investir em HQ com personalidades, tudo acaba em “inho” ou “inha”: Oscazinho, Pelezinho, Senninha, Aninha. Já penso em lançar o Gugazinho, FHCzinho ou ACMzinho.

Vale a pena ser artista das HQs no Brasil?
É dificílimo e desleal. Os gringos chegam aqui com os pacotes prontos. São revistas, álbuns de figurinhas, brinquedos, guloseimas etc. O artista brasileiro bate de frente com esse esquemão. Não devemos esmorecer.

Os japoneses são a bola da vez atualmente!

Que tem feito em termos de quadrinhos no momento?
Além de desenhar o Xaxado, faço as tiras e HQs dos Miudins e tenho participado de alguns salões de humor. Recebi uma Menção Honrosa no Salão de Humor de Volta Redonda e Menção Especial no 1º Salão Internacional de Humor da Bahia, ambas em 2001.

Quais seus projetos para o futuro?
Venho produzindo material para oferecer aos jornais. Aliás, prefiro publicar em jornais do que ter revista em Banca.

Qual o motivo dessa preferência?
Acredito que para um desenhista que ainda não tem personagem conhecido como eu, o jornal é um veículo promocional mais eficiente. O fato de circular diariamente e de que cada exemplar será lido em media por seis pessoas, há a possibilidade de uma resposta mais rápida ao seu trabalho. Com revista a coisa é diferente, que além de não contar com um marketing forte, você tem que se preocupar com distribuição e rezar para que comprem. Caso contrário, o cancelamento da publicação é certo.

Chega-se a conclusão então, que para um bom começo, os jornais funcionam?
Claro! Quando a mônica estreou em revista em 1970, ela já vinha de uma experiência de seis anos em jornais. Agora, com as quedas nas vendas de suas revistas, soube que o Mauricio voltará as origens, investindo pesado em tiras nos jornais. O caminho é esse.

Você acha que trabalhar com HQ no Brasil é mais um hobby que uma profissão?
Infelizmente não temos uma indústria forte de quadrinhos no Brasil. Pouquíssimos artistas vivem somente de HQ neste país. Atitudes como a de Cedraz, por exemplo, em montar equipe de trabalho fora do eixo Rio/SP, alimentam esperanças para um futuro promissor.

Seu recado final:
Gostaria de agradecer aos fanzineiros que nos últimos dois anos deram espaço ao meu trabalho e com isso ajudaram os Miudins a ter destaque no cenário alternativo de HQ.

MinQ: Nossos sinceros agradecimento ao Sidney pela oportunidade de tê-lo como nosso entrevistado.

ASSIM NASCERAM OS QUADRINHOS


Por: Alex Sampaio

Como se sabe, a Alemanha teve Wilhelm Busch, com seus personagens Max und Moritz. A Suíça destaca-se com Rudolph Töpfer e Monsieur Vieux-Bois. A França comparece ao panorama universal com Christophe e sua Famille Fenouillard. A Inglaterra, por sua vez, apresenta a revista Punch como o primeiro veículo de quadrinhos. Os norte-americanos, disseminaram o mito de que é deles a criação dos quadrinhos, surgidos sob a camisola do Yellow Kid, de Richard Felton Outcault. Em comparação com todos esses países, alguns deles verdadeiros baluartes da indústria quadrinhística internacional, seria natural que o Brasil se sentisse inferiorizado. Mas tal não acontece, pois ele também o quer mostrar. Na realidade, contemporâneo aos demais ou até mesmo atuando alguns anos antes deles, se formos mais precisos, já estava no Brasil o caricaturista Ângelo Agostini, publicando nos jornais do Segundo Reinado, em linguagem gráfica, as aventuras de suas diversas personagens.

De uma certa forma, o próprio nome já o denuncia: Ângelo Agostini não era originalmente brasileiro, embora tenha vivido aqui grande parte de sua vida e tenha finalmente se naturalizado em 1888. Na realidade, ele nasceu em Vercelli, na Itália, pouco antes da metade do século XIX e veio para o Brasil quando tinha dezesseis anos. Aqui viveu a maior parte da sua vida, até a sua morte, em 1910. No entanto, apesar de italiano de nascença, ele pode muito bem ser considerado como brasileiro, não apenas porque se naturalizou, mas, também, por ter aqui desenvolvido todas suas atividades artísticas de destaque.

Tendo desde jovem se dedicado à ilustração, Agostini colaborou primeiramente na revista Diabo Coxo e depois em O Cabrião. Possuía uma veia satírica bastante destacada, o que lhe valeu vários entreveros com a polícia do Segundo Império e, depois, com a da nascente República. Seu trabalho marcou esse período, sendo impossível realizar uma análise da história brasileira dessa época sem mencioná-lo e a seu trabalho. No Cabrião, apareceram seus primeiros trabalhos e ilustrações. Deve-se considerar que eles não tinham ainda os elementos característicos dos quadrinhos, como o balão ou a onomatopéia, algo que, aliás, também faltava ao trabalho tanto de europeus como de norte-americanos naquele período. No entanto, pode-se defender que os trabalhos de Agostini guardavam uma semelhança muito maior com os quadrinhos do que os dos autores acima citados. Era, então, o ano de 1864; as histórias em quadrinhos, tais como as conhecemos hoje, estavam longe de existir.

Durante sua atribulada vida, Agostini fez um pouco de tudo no que diz respeito à arte gráfica. Foi ilustrador freqüente de várias revistas, entre os quais se destacam a Vida Fluminense e O Mosquito. Fundou e foi, durante mais de dez anos, o diretor da Revista Ilustrada. No fim de sua carreira, colaborou com a empresa O Malho, responsável pela revista infantil O Tico-Tico, de cujo logotipo foi o idealizador. E foi também a mente criativa por traz de várias personagens fixas, publicadas durante anos em algumas dessas revistas, que estudiosos identificam como pioneiras entre as personagens fixas dos quadrinhos. Duas delas se destacam nesse rol.

Ângelo Agostini publicou sua primeira história com personagem fixo na Vida Fluminense, iniciando em janeiro de 1869. Intitulada As aventuras de Nhô Quim, ou impressões de uma Viagem à Corte, narra as experiências de um caipira perdido na cidade grande. A história é desenvolvida em uma série de situações hilariantes, na realidade constituindo muito mais variações em torno de um mesmo tema que um enredo contínuo com começo, meio e fim. Entre cada um dos episódios de sua série, o autor introduziu como que uma espécie de gancho, que deixava pressupor a continuidade no número seguinte do jornal. Essa modalidade narrativa funcionava muito bem como estratégia de marketing e como elemento de manutenção de uma clientela cativa de leitores, como já haviam descoberto os autores de folhetim alguns séculos antes e como descobririam os syndicates norte-americanos vários anos depois.

É fácil identificar que esse trabalho de Ângelo Agostini já encerra uma novidade para a época: uma proposta narrativa de maior fôlego que poderia até ser considerada, segundo o pesquisador Antonio Luis Cagnin, como "a primeira novela-folhetim de que se tem notícia, ou, como se diz hoje em dia, a primeira graphic novel". Nessa série, Agostini destaca-se no uso de recursos metalingüísticos ou de enquadramentos inovadores para a época, como uma sucessão de vários quadrinhos utilizando um mesmo cenário de fundo, técnica que apenas muito tempo depois foi explorada pelas histórias em quadrinhos. A personagem foi publicada de 1869 a 1872, tendo sido também desenhada por Cândido de Aragonês Faria, que manteve o mesmo estilo do criador original.

Sua segunda personagem fixa, Zé Caipora, praticamente mantém a mesma temática de Nhô Quim. Mudam-se apenas os traços do protagonista, mas permanecem a mesma temática e forma narrativa. As aventuras de Zé Caipora foram publicadas de maneira não muito regular, de 1883 até 1886, na Revista Ilustrada; foram depois retomadas, durante algum tempo, no Don Quixote, e finalmente encerraram suas peripécias no periódico O Malho. Posteriormente, foram publicadas em álbum independente, sendo as histórias redesenhadas por seu autor. Segundo os críticos, Agostini atingiu, em As aventuras de Zé Caipora, um grau de qualidade do desenho muito superior ao que havia atingido em sua obra anterior, As aventuras de Nhô Quim, gerando uma produção artística que ainda hoje se destaca pelas explorações criativas em que seu autor se aventurou. Acima de tudo, Agostini representou um artista que jamais teve medo de ousar. Um exemplo ainda atual.

Durante sua carreira, Agostini e sua arte engajaram-se em várias causas. Liberal convicto, fez uma ferrenha campanha a favor da Abolição da Escravatura, que ocorreu em 13 de maio de 1888, e pela República, proclamada em 20 de novembro de 1889. Além disso, era a favor da liberdade de culto no país e contra a repressão da população. Em reconhecimento a sua importante contribuição para o fim da escravatura, recebeu do político e abolicionista Joaquim Nabuco o título de cidadão brasileiro. Nesse ano entretanto, ele se envolveu em um escândalo. Casado e com dois filhos, Agostini se apaixona por uma aluna de desenho chamada Abigail e a engravida. Para evitar mais problemas, ele vende a Revista Ilustrada em 1888 e parte para a Europa no ano seguinte. A revista ainda duraria até 1898.

Embora Ângelo Agostini não tenha utilizado alguns dos recursos comuns às histórias em quadrinhos de hoje em dia, como o balão e a onomatopéia, desconhecidos em sua época, ele deve, com toda justiça, ter lugar assegurado entre os pioneiros da arte dos quadrinhos. Nada fica a dever, em termos de qualidade, a qualquer artista gráfico de sua época. Em alguns casos, até, chega mesmo a suplantá-los com grande vantagem. Recuperar a obra artística de Ângelo Agostini é tarefa que apenas aos poucos e arduamente vem sendo realizada no país, principalmente devido ao péssimo costume de se exaltar demasiadamente os valores alienígenas e fechar os olhos às belezas que internamente se possui. Algumas exposições já foram organizadas no país, mostrando seu trabalho, visando mostrar às novas gerações os meandros de uma produção artística inigualável em sua época.

Publicações que recuperam o trabalho desse artista, indiretamente como acontece em As barbas do imperador, de Lília Moritz Schwarcs , ou de maneira facsimilar como realizou a UNESP/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo com a publicação de coletânea contendo tudo o que foi publicado no Cabrião, são iniciativas oportunas e necessárias. Também meritória é a comemoração, a cada 30 de janeiro, do Dia do Quadrinho Nacional, tradição instituída pela Associação de Quadrinhistas e Cartunistas do Estado de São Paulo (AQC-ESP), desta forma celebrando o aniversário do início da publicação de As Aventuras de Nhô Quim.

Quadrinhos sem futuro

Por: Alex Sampaio*

Apesar de muito estardalhaço na mídia e todo noticiário especulativo em torno de uma revitalização dos quadrinhos, principalmente com grandes sucessos que o cinema proporciona a 8º arte, em detrimento dos personagens de grande apelo popular, a realidade das HQs são bem diferentes dos que muitos acham e acreditam. Os quadrinhos sempre estiveram associados a diversão, mas muitas vezes com uma conotação inferior ou tratado com ojeriza. Lamentavelmente, vivemos numa nação sem princípios educacionais e notadamente sem costume de leitura. Entende-se assim, que abrangendo a conjuntura econômica e social, chegamos a números lastimáveis para uma população tão grande quanto a nossa.

Já vivemos com tantas bestialidades no nosso país e saber que somos tão medíocres na leitura, é de arrepiar. Estamos sempre remando contra a maré. A fama do Brasil na imprensa estrangeira já não é boa. O país é associado à destruição das florestas, violência contra a mulher, a infância abandonada chega a níveis intoleráveis, prostituição infantil, trabalho escravo em pleno Século XXI, tráfico internacional de mulheres e drogas, a doenças endêmicas e à violação de direitos humanos. Tem um ditado que explica bem essa questão cultural: O país que não educa seu povo, jamais será desenvolvido.

Como fazer um povo ler? Como acreditar numa população, quando um dos princípios básicos para o desenvolvimento da leitura acontece na escola e a nossa escola pública está completamente deteriorada? Nossas HQs sofrem com estes descasos, pois o costume da leitura começa cedo e nossos quadrinhos poderiam estar nas salas de aula, educando e convivendo com os futuros leitores e prováveis colecionadores de gibis. Como não existe uma filosofia voltada para leitura nesse país, sabemos que poucos migrarão para a 8º arte.

Conviver com tantos percalços, é desanimador. Toda arte busca um público, pois um artista sem público é de fato um desanimado sem ver o alcance da sua arte. Isso se reflete em vários setores e não somente nos nossos quadrinhos. Percebe-se perfeitamente que a cada ano o público leitor se afasta. Vários fatores estão ligados a esse distanciamento, desde o custo elevado de uma revista em banca, a péssima distribuição de renda do país. Acontece, que muito poderia ser feito para debelar esses inconvenientes tropeços, principalmente com uma política de subsidio aos produtos ligados a arte, educação e entretenimento. Só assim seriamos primeiro mundo.

*Alex Sampaio é colecionador de gibis, editor do zine Made in Quadrinhos e colunista de diversos sites na Internet.

3/09/2009

ENTREVISTA: Daniel Brandão


O criador do personagem O Noite e editor da revista Manicomics, Daniel Brandão, fala do início da sua carreira, das suas influências nos quadrinhos, da febre da HQ cearense, dos seu contato com editoras, do futuro do quadrinho brasileiro e da aceitação dos leitores ao seu trabalho nessa sensacional entrevista ao nosso blog:

Por: Alex Sampaio*

Antes de mais nada, é bom que os nossos leitores conheçam um pouco sobre o Daniel Brandão:
Nasci em Fortaleza em 03 de novembro de 1975 e, pelo que me lembro, sempre gostei de desenhar. Estudei Comunicação Social na UFC, sou sócio da Graph It Art & Software, uma empresa que lida com informática educativa basicamente e quadrinhos.

E os quadrinhos, os desenhos, como surgiram seus primeiros contatos com esse mundo?
Desde os sete anos de idade já lia quadrinhos ( Mauricio de Sousa, Trapalhões...) e já pintava quadros infantis nessa época e gostava muito de desenhar. Aos nove anos fui apresentado por um amigo a um mundo fascinante: os universos Marvel e DC. Desde então não pinto mais, apenas desenho.

Foi assim que surgiu seu interesse por HQ?
Sim. Aos dez anos produzi minha primeira HQ: Pantherman! Era tão ruim que foi esquecida numa viagem.

O que você lia nessa época?
Lia o máximo de quadrinhos que caía em minhas mãos, mas o que realmente colecionava era Marvel e DC. Sempre gostei do Demolidor.

E as inspirações para os roteiros, de onde vêm?
Os meus roteiros são traduções do que vivo e observo ao meu redor. Tanto os cômicos como os trágicos, surgem de acontecimentos ligados a mim de alguma forma. O Noite, por exemplo, é uma parte de mim. Agora eu quero deixar claro que para passar qualquer idéia para o papel, no meu caso, requer muita transpiração. Não é fácil construir um bom enredo.

Falando sobre O Noite, como ele surgiu?
O Noite surgiu quando eu tentei entrar na Oficina de Quadrinhos da UFC. Era necessária a apresentação de uma HQ de uma página com começo, meio e fim para ser aluno na Oficina. Eu tinha uma semana de prazo para isso e sem nenhuma idéia na cabeça. Daí veio a solução: para uma HQ de uma página, nada mais simples que um assassinato. Eu não tinha ainda nenhum personagem legal que fosse capaz de matar. Então criei um: O Noite. Era 1995 e eu fui aprovado.

E os seus colegas ( JJ, O Ed Carlos, O Eduardo, O Geraldo etc. ) como surgiu esta parceria?
O JJ foi o meu monitor na Oficina de Quadrinhos. Quando acabei o curso também virei monitor e ficamos amigos. O Ed Carlos foi aluno junto comigo e o Eduardo era grande amigo do JJ e frequentava a Oficina. O Geraldo eu conheci junto com o JJ no curso do Al Rio. Hoje, JJ, Geraldo e eu formamos o Graph It Stúdios. O Eduardo trabalha com a gente na área de software educativos. O Ed Carlos enveredou por outros caminhos.

E a revista Manicomics, como surgiu esta iniciativa?
A Manicomics é um sonho antigo. No começo de 1995, a turma que fazia Oficina estava descontente com o conselho Editorial da revista Pium, uma publicação da Universidade. Os quadrinhos que eram aceitos na época, ou eram muito regionalistas ou muito “cabeça” e, nós queríamos fazer algo que realmente gostassemos. Daí nos reunimos ( Ed Carlos, Sérgio Otomo, Layrus, Eduardo, Dudu, Asteka, Fonseca, JJ e eu) e surgiu a idéia, o nome, a linha a ser seguida etc. Acontece, que por motivos religiosos, financeiros, filosóficos etc. sobrou apenas o JJ, Eduardo, eu e depois o Geraldo se juntou com a gente. Com a força de vontade e com a grana deste último grupo, a idéia não morreu, o sonho não acabou e a Manicomics nº 0 saiu em outubro de 1996.

Outro detalhe, é sobre a revista Capitão Rapadura. Como pintou esta idéia?
Mino, o criador do Capitão Rapadura me conheceu em março de 1996. Ele me falou do projeto de produzir uma revista do Rapa, personagem criado em 1973 e da necessidade de formar uma equipe para isso. Então, convidei o JJ, o Geraldo e o Eduardo e fomos incumbidos de fazer um teste: produzir quarenta páginas de quadrinhos cada um em um mês. Conseguimos e fomos aprovados. Hoje, Mino, Geraldo, JJ e eu ( o Eduardo não deu para continuar ) e mais recentemente o Valdijúnio, formamos a equipe que produz a revista do Capitão Rapadura. Escrevemos, desenhamos, arte-finalizamos, colocamos as letras e em breve, o colorido.

Qual o segredo cearense para se produzir tantas revistas próprias, a exemplo da Manicomics, Capitão Rapadura, Pium, Garage Comics, dentre outras ?
DB: Acho que o Ceará ainda não atingiu o sucesso em termos de quadrinhos. O preconceito é grande e o público leitor é pequeno. O fato dessas publicações citadas existirem, é em consequência da força de vontade e do amor de algumas pessoas pelos quadrinhos. E olha que eu acho que a HQ no Ceará está passando por um dos seus melhores momentos...

Você já procurou ou foi procurado por alguma editora para mostrar os seus trabalhos?
Já procurei algumas editoras, sim. Visitei os Estúdios Maurício de Sousa, fui a Editora Escala, a Editora Trama, fui a Metal Pesado e claro, a Editora Riso, através do Mino. Fui bem tratado em todos as editoras, mas por enquanto, só consegui trabalho na Riso.

Qual a perspectiva do quadrinho brasileiro?
A melhor possível. Tenho esperança que com esse novo BUM! Que está acontecendo agora no quadrinho nacional, surgindo novas publicações, com novos artistas talentosos, com maior espaço na mídia e leitores deixando de se esconderem, o quadrinhista venha a ser reconhecido como um profissional e a HQ como uma arte. As pessoas estão abrindo os olhos para a importância desse meio de comunicação. O quadrinho nacional ainda tem muito chão pela frente até chegar ao nível ideal, mas os primeiros passos estão sendo dados. Resta torcer para que não haja surpresas desagradáveis na economia do país.

Existe futuro para o artista brasileiro em nosso país, ou teremos sempre que bater às portas de editoras americanas?
Acho que o futuro está ligado a consolidação do mercado brasileiro. Não vejo nenhum problema no fato de artistas brasileiros trabalharem para o mercado americano. Tenho esperança que esses artistas em breve terão a mesma oportunidade aqui no Brasil.


O fanzine é o meio mais honesto que existe para propagar a arte!

Que tem feito ultimamente em termos de HQ?
Temos os nossos trabalhos com a Graph It Art & Softwares, onde ilustramos softs educativos, livros didáticos e coisas do gênero. Na Graph it fizemos um montão de coisas. Muitas ilustrações publicitárias, cartilhas, trabalhos institucionais, quadrinhos encomendados, autorais, o Manicomics, etc. Participamos em 1997 de um concurso nacional de quadrinhos promovido pela ABRA (Associação Brasileira de Arte) e fomos classificados. Isso nos encorajou a viajarmos para São Paulo de ônibus. Uma aventura! Lá conhecemos uma porção de gente importante: Flávio Colin, Shima, Marcelo Campos, Otávio Cariello, Roger Cruz, dentre outras feras. Distribuímos muitos Manicomics e fizemos muitos amigos. Em 1998 abrimos a primeira turma do curso de histórias em quadrinhos da Graph it. Não esperávamos fechar uma turma sequer, mas graças a Deus a procura foi enorme e até hoje eu dou aula de quadrinhos e desenho.

Que acha dos fanzines como publicação alternativa?
Simplesmente fundamentais. É a base de tudo em termos de quadrinhos, de movimento underground, movimento de classes, movimentos alternativos, etc. Puxando mais para as HQs, acho que é um grande aprendizado. O fanzine é o meio mais honesto que existe para propagar arte, idéias e informações, pois não visa lucros, é feito com amor, não tem censura e nem restrições de editor, empresário, político, etc. É um meio independente e livre, por isso, sua grande importância.

Como está sendo a receptividade dos leitores ao trabalho de vocês?
O feed back ao nosso trabalho é muito bom. Recebemos muitos elogios. Gostamos de receber críticas, pois só assim podemos ter mais condições de acertar.

Suas considerações finais:
Gostaria de agradecer esse valioso espaço e queria dizer que me sinto honrado pelo seu interesse ao nosso trabalho. Espero que todos os fanzines se mantenham firmes e cresçam cada vez mais. Vida longa as Histórias em Quadrinhos!

MinQ: Nossos sinceros agradecimentos ao Daniel Brandão pela atenção e pela brevidade em nos atender.

*Alex Sampaio é colecionador de gibis, editor do zine Made in Quadrinhos e colunistas de diversos sites na Internet.

ONDE EU ESTAVA???



Por: José Salles*


O ano era 1974. O mundo, assim como hoje, estava muito – até mais – conturbado. Falava-se em dètente, mas todo mundo ainda morria de medo de uma guerra nuclear. O medo de uma crise econômica mundial, do petróleo com mais uma guerra islâmica-isrraelense. Nos Estados Unidos, o presidente Richard Nixon é obrigado a renunciar depois do escândalo do watergate. No Zaire, Muhamad Ali põe George Foreman à nocaute. Aqui no Brasil, o partido do governo militar, a Arena, leva uma surra nas eleições legislativas e o presidente Geisel anuncia uma abertura lenta e gradual. O Palmeiras derrota o Corinthians e trona-se o campeão paulista da temporada.


Mas onde eu estava no meio dessa confusão toda? Estava com sete anos de idade, começando a frequentar a primeira série e hipnotizado pela nova aquisição de minha família: a TV à cores. Eu que já me tornara um videota e já curtia a TV preto e branco, ficara embasbacado. Assistia os heróis Marvel, os filmes de guerreiros, cawboys, desenhos animados e jogos da copa.


Nunca descuidei da escola. Aprendi a ler. Lia o gibi do Batman. Precisamente o Almanaque Batman de 1974 da Ebal. Meus pais liam gibis para mim. Lembro de Batman, Homem Aranha, dentre outros.


Nas férias, na casa da vovó tinha um sebo de gibis, onde comecei minha coleção que guardo até hoje. Capitão América, Thor, Homem de Ferro, Hulk, Homem Aranha, Príncipe Submarino, Batman e Superman.


Crescendo, virei um "aborrecente", mas não abandonei os gibis. Lia de tudo, mas gostava mesmo era da Marve/DC. Talvez até eu gostasse mais do Asterix, Lucky Luke, Mortadelo & Salaminho, mas não admitia. Virei universitário e no fim de 1980, apareceu Darknight, O Cavaleiro das Trevas, a fantástica história de um Batman envelhecido e neurótico, que mudou os rumos da HQ mundial. Daí surgiram as graphic novel como Watchmen, Orquídea Negra, V de Vingança, Asilo Arkham e tantos outros.


Nesta mesma época comecei a tomar contato com os quadrinhos marginais, graças a Chiclete com Banana, Circo, Geraldão, Animal e outras. Graças também a essas revistas, conheci vários autores incríveis, como Lourenço, Mutarelli, Marcatti, André Toral e o estrangeiro Robert Crumb.


* José Salles é diretor de curtas, estudioso de HQ, crítico de cinema e editor de quadrinhos.

2/13/2009

ENTREVISTA: José Salles


Por: Alex Sampaio

Editor do extinto e polêmico zine Os Mardito, José Salles é um estudioso confesso na arte cinematográfica. Seus comentários sobre cinema são de uma profundidade espantosa, na medida em que abrange principalmente a esfera underground. Nesta excelente entrevista ao nosso blog, ele fala da sua arte de escrever, das suas quadrinizações, do seu amor pelo cinema nacional dos anos 60/70, dentre outras revelações. Confiram o bate-papo:

MinQ: É bom que nossos leitores conheçam um pouco sobre o José Salles:
Salles: Mais um egocêntrico...

MinQ: Os Mardito, seu zine que se tornou polêmico pelo conteúdo forte, fez com que você ficasse bastante conhecido no meio fanzinístico. Por que ele deixou de ser publicado?
Salles: Os Mardito terminou principalmente devido a uma viagem ao exterior, mas já haviam planos para “matá-lo” antes mesmo de viajar...enfim, terminou, mas não terminaram meus projetos em fanzines.


O fanzine é o combustível da alma e nossa liberdade de expressão incontida!


MinQ: Com a parada do zine Os Mardito, seus quadrinhos também foram afetados. Quando veremos novas hqs suas?
Salles: Há planos para novas hqs, sim. O Wace ( Waldivar Cesar ) fez parceria comigo em dois zines de contos e está trabalhando na quadrinização do Anjo do Mal.

MinQ: Qual sua opinião sobre os fanzines como meio de divulgação underground?
Salles: Ah, fanzine é o combustível da alma. Liberdade de expressão incontida, inesgotável, inestimável...

MinQ: Existe uma seguimentação muito forte entre os fanzines. Isso ajuda a divulgar determinada arte ou seria melhor uma globalização das publicações?
Salles: Acho que o fanzine tem sua especialidade: circulação off-mídia, fora da mídia. Muitas vezes o fanzine acaba virando revista e perde sua força, vira um “caros amigos” da vida.

MinQ: Quais quadrinhos tem lido ultimamente?
Salles: Ralf Konig e Lourenço Mutarelli.

MinQ: Existe futuro para a HQ nacional ou teremos sempre que conviver com o que vem de fora?
Salles: Claro que existe. Veja aí, temos o sensacional Emir Ribeiro, que ainda não tem o devido respeito da mídia – foda-se a mídia – mas que tem o nosso respeito, o Edgar Franco, o Renato Coelho, enfim, são tantos que não vou conseguir citar todos. E espero conviver com as coisas boas que vem de fora também, tipo Ralf Konig e Robert Crumb.

MinQ: Seus textos sempre foram o seu forte. Novas quadrinizações deles virão por aí?
Salles: Sim. Tenho muitos planos a respeito. Tenho mantido contatos com o Francis Brandão e deve vir mais coisa por aí.

MinQ: Uma das grandes quadrinizações sua foi a hq Pé de Moleque, com arte do Francis Brandão. De onde vêm suas inspirações para escrever?
Salles: Minha inspiração para escrever vem da vida, da minha e dos outros, dos jornais, das notícias. Charles Buckowisk certa vez escreveu que jamais faltará assunto e/ou inspiração para se escrever. Concordo com o velho bebum!



O Cinema Nacional Entrou no Obscurantismo no Governo Collor!



MinQ: Seus comentários sobre filmes são bem aceitos pelos leitores. Qual sua técnica de avaliação como crítico?
Salles: Desde criança fazia um pequeno arquivo comentando os filmes a que assistia. O espírito dos meus comentários é mais ou menos aquilo mesmo que falo, de maneira simples, com as impressões que tive do filme. Quase não tenho livros sobre cinema em casa, por isso, alguns equívocos aparecem. Não tem essa de ‘entendido’ no assunto. Assisti a milhares de filmes. Adoro cinema e resolvi escrever a respeito descompromissadamente.

MinQ: Qual sua opinião sobre o cinema nacional?
Salles: Adoro assistir a filmes brasileiros, principalmente as produções dos anos 60/70. À partir dos anos 80, a coisa começou a naufragar, até chegar ao obscurantismo total com o governo Collor. De uns anos para cá, a coisa voltou a andar e os filmes voltaram a ser produzidos. Mas bem poucos – ou quase nada – que empolgasse o público. Andaram aparecendo alguns bons, como Um Céu de Estrelas, Os Matadores, Central do Brasil e Boleiros.

MinQ: Como tem sido sua experiência como diretor e roteirísta de filmes?
Salles: Muito divertida. Me dedico muito a isso.



O Cinema de Curta Metragem no Brasil tem Produções de Muito boa Qualidade!



MinQ: Que avaliação se faz a sua participação na comédia Fatman & Robada de 1977?
Salles: Eu não participei desse filme, embora conheça o diretor/roteirista Rogério Balbino e muita gente envolvida na produção. É um ótimo filme. A grande suspresa do cinema independente do ano passado.

MinQ: Como anda o mundo do cinema de curta metragem do Brasil?
Salles: Melhorando. Além da Canibal Produções, do Souza e Baiestorf, há ainda em Chapecó, a Extreme Produções, do Boni Coveiro e do Zambiasi, que já produziram curtas e longas em VHS. Há também o Cleiner Miceno, de Sorocaba, da Banda Joe Coyote, que vem produzindo curtas de muito boa qualidade. Há mais gente, que me desculpem aqueles que não foram citados.

MinQ: Percebe-se que o mestre dos curtas brasileiros é o Petter Baiestorf. Quais outros podemos destacar?
Salles: O Petter Baiestorf é o mestre mesmo. É o precursor de uma nova estética. Em um tempo em que todos lamentavam o fechamento da Embrafilme, ele juntou os amigos, pegou uma VHS e foi fazendo seus filmes. E não posso esquecer de citar outro precursor: O Cesar Souza, que fez vários curtas em super-8 e hoje é o parceiro indispensável de Baiestorf.



Com uma idéia criativa, basta um ou dois atores para se ter uma grande cena!


MinQ: O advento das câmeras digitais, o próprio videocassete e as câmeras em VHS trouxeram a possibilidade de se fazer filmes a baixo custo. Como anda a qualidade dessas produções independentes?
Salles: Estão melhorando muito. Muitas vezes a criatividade supera as limitações técnicas. É o que acontece na produção independente nacional. As vezes, basta um ou dois atores, uma idéia criativa e pronto, temos uma grande cena. Prefiro mil vezes assistir a um filme de produção barata como O Monstro Legume do Espaço, a produções milionárias e pseudo-histórica como A Guerra de Canudos.

MinQ: Que acha do Rubens Ewald Filho como crítico de cinema?
Salles: Escreve muito bem. Eu era um ávido leitor de suas publicações. Só que ele é um cara que sempre teve rabo preso, pois trabalha para determinadas redes de TV e não se atreve a comentar mal sobre os filmes exibidos por esses meios de comunicações. Certa vez, há muito tempo, ele estava lançando um livro e eu fui a sua noite de autógrafos. É uma pessoa muita atenciosa e simpática.



O Rubens Ewald Filho sempre teve o rabo preso as Redes de TV!



MinQ: Como tem visto esse boom! Do cinema nacional, com várias produções em andamento e muitos prêmios sendo ganho?
Salles: Prêmios não servem para nada, a não ser aumentar o ego de quem o ganha. De qualquer forma, a coisa está menos ruim do que nos tempos do Collor, período que não haviam produções em andamento. Pena que a maioria dos filmes nacionais produzidos atualmente queiram seguir o “padrão-global-de-qualidade-politicamente-correta”, e isso nos deu filmes medonhos como Carlota Joaquina, O Que é Isso Companheiro, Pequeno Dicionário Amoroso, Guerra de Canudos, etc. Felizmente há exceções, como os citados anteriormente...



Prêmios não servem para nada, apenas para aumentar o ego de quem o ganha!


MinQ: Suas considerações finais.
Salles: Puxa cara, acho que já falei demais. Grande abraço aos seus leitores.

Nota: O José Salles é um cara super legal e muito atencioso. Nossos sinceros agradecimento pela entrevista e pela atenção em nos atender.

Em busca do lucro perdido


Por: Alex Sampaio*

Com a crescente dilapidação dos quadrinhos, uma das grandes consequências, entre tantas outras, nefastas, está na descaracterização dos gibis de super-heróis clássicos, que têm agora suas estruturas originais cada vez mais pulverizadas pela nova estética de video clip. Se antes, quando a HQ do Tio Sam era respeitada e havia o interesse do leitor em acompanhar as histórias, as coisas já não andavam para as editoras, imagine nos dias atuais, com tantos suplícios para se organizar uma cronologia perdida no tempo, e a crescente cobrança de vendas?
Acontece, que os estúdios buscam hoje um mercado mais imediato, semelhante a indústria cinematográfica, gerida com braço forte e com vasto apelo comercial, com objetivo de lucro certo e rápido. Com esse pensamento, desapareceram os estilos, as peculiaridades em relação a estrutura harmoniosa de cada personagem, o sentido de linha de cada herói, tudo isso substituído pela "tesoura giratória" dos estúdios que regem a circulação das revistas. Isso, independente de ser uma obra dita superior, como de um Stan Lee, ou da mais pura mixórdia de ocasião, os procedimentos dos executivos são os mesmos em busca do lucro perdido.
Com gestos semelhantes a uma automação bancária, as novas idéias giram em torno de ação do início ao fim, com muita imagem repleta de cores vivas, cortes rapidíssimos, feitos sem dúvida, para atender um mercado de gosto muito duvidoso, como o americano, que não suportam histórias longas e que tem um público analfabeto em linguagem de quadrinhos dos modelos atuais.
O modelo de super-herói que eles nos impõem hoje, fica restrito e nada pode se exigir atualmente. Seria interessante que se ampliasse, por assim dizer, novas estéticas para atualizar algumas imagens, mas que isso não se tornasse uma paranóia, provocando uma massificação, que poderia se chamar de "metástase" capaz de levar os quadrinhos a anularem suas origens e suas peculiaridades de reacender o gosto pela leitura.
É assustador constatarmos hoje, a mediocridade das HQs, quando comparamos com o que já tivemos no passado, estas sempre bem feitas, com criatividade, senso de oportunidade, condicionada, dentro do estilo noir de cada personagem do momento. Pobre dos que consomem tamanhas obras fajutas, levando ao cérebro um forte fator de embrutecimento e ignorância, onde a contemporaneidade " escarfunda " na lama pela indisponibilidade de novos conceitos, idéias e ousadia em abdicar do que propõe uma urgência financeira.
Com a decadência dos estúdios do Tio Sam, que possuiam estilo, onde poderiam até ser chamados de grife, Marvel e DC afundaram em dívidas, com descaracterização, ficando o negócio de quadrinhos gerido de forma imatura, zombando da inteligência do público consumidor. Executivos que de nada entendiam de HQ, passaram a determinar quantos títulos deveriam circular, quantos heróis seriam criados e lançados, enfim, quantos musculosos e peitudas deveriam sair por ano. Uma planilha semelhante à linha de montagem de uma fábrica e o que se estava em jogo não parecia nada diferente da salsicha que acompanha o hot-dog do fast-food. Um verdadeiro lixo que se derrama nas páginas controladas por essa indústria do chamado herói de ocasião. O mais triste é ver o mercado brasileiro totalmente aberto ao consumo, dominado na distribuição, restando apenas a poucas tiragens abnegadas que cedem espaço a obras de outras editoras de menor porte.
Os heróis são montados dentro de um mesmo padrão, dentro de uma mesma linguagem, como já frisamos, os quadrinhos seguem assim. Porque estão em mãos do mesmo controle, que apenas entende o ofício de ganhar dinheiro, money, lucro, de preferência rápido. Antigamente não era a mesma coisa, onde havia uma temática lógica, havia uma elaboração, feita por pessoas que sabiam saborear, existia cadência de enredo, existia prazer em fazer e prazer em ler, antes de tudo, havia criatividade.
O prazer de ler super-herói acabou. Basta de aborrecimentos, de ter que suportar neuroses de roteiristas, que se apresentam sempre como novos talentos e nunca imitadores. Esses malditos gênios da atualidade, que nos atormentam com tantas aberrações, deveriam sucumbir junto com suas criações utópicas. Deve-se concluir então, que os quadrinhos de hoje são muito piores que os de antigamente??? Nunca!!! Os de antigamente nunca foram ruins!!!... O leitor de hoje virou um mero consumidor. Tristes tempos!!!!!!


*Alex Sampaio é colecionador de gibis e editor do fanzine Made in Quadrinhos

2/12/2009

ENTREVISTA: Dom Cabral

Dom Cabral é um daqueles artistas persistentes e que busca sempre um ideal. Criador dos personagens Crutsana, Crustacius e toda turma dos Defensores da Natureza, Cabral possui um talento invejável. Sua página na Internet é super bem feita e através dela, suas criações fluem e chegam ao mundo, mostrando a qualidade dos seus traços e das suas idéias. Nessa excelente entrevista ao nosso blog, ele nos conta um pouco de como tudo começou, seus planos e sobre suas afinidades com os quadrinhos. Confiram o bate papo:

Por: Alex Sampaio

Quem é Dom Cabral?
Nasci em Blumenau, SC. Há 32 anos trabalho como desenhista, minha especialização é Desenho Têxtil, profissão que segui na maior parte de minha carreira, porém hoje moro em Fortaleza.Trabalhei em empresas do ramo de estampas, por exemplo, Artex, Hering, Marisol, entre outras. Como artista plástico fui sócio-fundador de 2 associações, Bluap em Blumenau, e Ajap em Jaraguá do Sul. Mas agora me dedico ao projeto de vida (sonho) que é fazer a Crutsana viver para sempre.


Como surgiu o interesse pelos desenhos e conseqüentemente pelos quadrinhos?
Sou do tempo que se trocava revista na porta do cinema. Meu pai para dar inicio a minha coleção comprou uma série de revista, entre elas, Mickey, Pato Donald, e a partir daí, começou minha paixão pelos quadrinhos, principalmente Disney.


Que tem lido em termos de HQ ultimamente?
Muitos fanzines, feito principalmente, no Ceará, ou aqueles que recebo via correio. Quero salientar o Manicomics, muito bom por sua diversificação e qualidade. Também o Bone, criado por Jeff Smith. Mas não deixo minha paixão pela Disney, em especial, Mickey.


Fale um pouco sobre Crutsana, Crustacius e a Turma dos Defensores da Natureza:
Tudo começou no sonho de fazer um desenho animado com meu mestre e amigo, Roberto Sombrio. Trabalhamos durante anos, juntos, na Artex. Ele, pesquisou as lendas brasileiras e eu fui busca algo diferente, fui observando que os ratos e os patos, já haviam sido aproveitados com o melhor. Hanna-Barbera já havia feito todos os outros animais e, em minha opinião, Mauricio de Souza criou as melhores crianças. Somente restou o fundo do mar, daí então fiz pesquisa em enciclopédias e encontrei um ser diferente, era o Carangueijo-Eremita (Ermitão), comecei então a desenhar procurando simplificar os traços. Daí surgiu Crustacius e Crutsana em 1974.


Hanna Barbera fez todos os animais, Mauricio de Sousa criou as crianças e só me restou o fundo do mar. Daí surgiram Crustacius e Crutsana em 1974!


Sua identificação com o tema das suas HQs vem de alguma militância ecológica?
Não, de jeito nenhum. Bem, minha maior preocupação veio, em torno de 20 anos atrás, quando em minha cidade natal comecei a notar que o rio que eu pescava, com amigos e família, estava mudando de cor, daí veio essa preocupação com o meio-ambiente que desde aquela época só fez aumentar.


Como tem sido a aceitação dos leitores aos seus personagens?
Impressionante. Creio que as crianças se identificam bastante com o fato de meus personagens se assemelharem a pequeninos fofinhos, em resumos, crianças também. Sempre após fazer minha apresentação sinto que cada vez mais as crianças se apegam a eles, até por que recebo muitos e-mails e sou abordado pelas crianças nos colégios me perguntando sobre os personagens. Além disso, tenho a felicidade de ouvir as crianças dizendo para mim após a Crutsana se apresentar que querem ser defensores da natureza, que é uma espécie de associação que pretendo criar no futuro estando muito próxima de um Clube, seria o Clube da Crutsana e os Defensores da Natureza.

Você também ministra palestras. O que aborda basicamente nesses encontros e como é a receptividade da platéia?
Bem, na verdade não são palestras, se parecem mais com apresentações. Essa apresentação, atualmente, conta uma história onde o título é Lixo no Lixo, ela é contada na forma de desenho animado, e narrativa de um Contador de Histórias, no caso eu. Dentro dessa história é contado sobre Reciclagem, a importância de se colocar o lixo no lixo e sempre se preocupando em separar adequadamente cada tipo de resíduo. A receptividade das criança chega a ser emocionamente, já que ela pedem tanto para se repetir a apresentação, e tenho notado que sempre tende a aumentar. Outro fator que indica tal receptividade é o fato de receber tantas ligações de escolas e profissionais que lidam com educação infantil sempre pedindo meu comparecimento, seja para conversar, como também, para marcar uma apresentação. Outro fator que mostra a receptividade é que sempre ao término da apresentação ofereço a revista para venda, mas de alguns meses para cá, nem chego a oferecer, as crianças já me abordam na procura de uma nova revista.


Como todo entrevistador de artista nacional, uma pergunta não pode faltar: Você já procurou alguma editora para mostrar seus trabalhos?
Não, não fui. Porém está em andamento um projeto de lançamento junto uma editora local em Fortaleza para o lançamento de 01 livro infantil, baseado na apresentação é feita nas escolas. Porém, o leque está se abrindo e estamos nos preparando para ofertas de editoras que queiram entrar como patrocinadoras de nossa revista infantil, jornal e novas apresentações. Também está sendo uma revista com alto padrão de qualidade, onde seu objetivo principal é o mercado americano e europeu. Seria uma Revista em Quadrinhos, dividida em 3 partes, sendo que as duas primeiras já estão prontas, este trabalho é uma parceria entre eu e Daniel Brandão Estúdio, uma empresa do ramo local de Fortaleza.


Sua revistinha Crutsana tem um perfil direcionado ao público infantil. De fato a HQ brasileira é mais forte junto a esse segmento?
Acredito que sim, afinal, Mauricio de Souza, Turma do Xaxado (Cedraz - BA) e a própria Disney, são o mercado principal do Brasil. Mas eu creio que esse cenário está mudando, novos quadrinhos aparecem a cada dia e eu vejo eles, não digo tomando, mas reinvidicando um espaço que a muito tempo não lhe é cedido.


O que falta para o quadrinho nacional difundir mais pelo país?

Projetos mais sólidos, e que demonstrem características definidas. Uma personalidade própria. E daí, cada um partir para buscar seu espaço no mercado, como estou fazendo atualmente, e com sucesso.


Existe futuro para o artista brasileiro em nosso país, ou teremos sempre que bater às portas do mercado americano?

Existe sim. Como disse na pergunta anterior, é necessária uma responsabilidade e que o profissional abrace a idéia como se ela já fosse dar certo, afinal, a personalidade e a maneira como você apresenta seu produto é essencial para que o público, cito investidores e consumidores, acredite também.


O futuro do artista brasileiro depende de sua responsabilidade e de abraçar a idéia acreditando que vai dar certo!


De onde vêm suas inspirações para seus roteiros?
O cotidiano. Existe exemplo maior para se aplicar nossa criatividade do que simplesmente olhando para o mundo? É a base do conhecimento, a observação e busca concretizar isso de todas as formas possível, eu uso minha arte dos quadrinhos.


A Internet é realmente uma alternativa de mercado para os artistas de HQ?
Bem, antigamente quando se trabalhava com o não-local era um processo lento e que as vezes gerava ruídos de comunicação, afinal, eram cartas e telefonemas, creio que a internet acelerou esse processo e tornou o mesmo bem mais eficiente, então na verdade o mercado não mudou, apenas se tornou mais rápido, mas ainda há demanda para nossos profissionais, e ao mesmo tempo, se a demanda aumenta, a quantidade de profissionais também aumenta, em resumo, está praticamente no mesmo nível de concorrência.


Como anda a audiência do seu site na Rede?
Depois que comecei a fazer as apresentações, o website da Crutsana começou a ser mais visitado, porém ele não é a ferramenta principal que está divulgando meu trabalho. Recebi e-mails de propostas, mas em números, não se compara com o contato pessoal. E isso somente aconteceu depois que comecei a fazer as apresentações, por que antes, era como um papel no chão, algumas pessoas visitavam, mas marca alguma ficava. Hoje já posso dizer que meu site é visitado com certa freqüência, por isso aviso, entrem mais, em breve faremos uma revista on-line, novos jogos e Loja On-Line, mandem e-mails que estamos organizando tudo.


Há espaço para outros artistas na Crutsana?
Sim. Hoje conto com a colaboração de Ronaldo Mendes, um desenhista, que faz os quadrinhos para o projeto da Crutsana, o Everton que começou a fazer agora as animações da Crutsana. Mas não pode parar por aí, por isso estamos trabalhando no lançamento do Jornal e em concretizar a periodicidade da Revista da Crutsana, tornando-a mensal. E posso dizer com plena certeza, é difícil encontrar roteiristas dispostos a trabalhar nesse nicho de mercado, para esse público, que acredito ser uma potencialidade.


Que tem feito ultimamente em termos de quadrinhos?
Bem, sem querer ser exclusivo. Crutsana e os Defensores da Natureza é a nova onda. J Brincadeira, tenho me dedicado plenamente a esse projeto, afinal, é um sonho que quero realizar, é um projeto de vida.


Quais seus planos para o futuro com seus personagens?
Formar uma Geração Crutsana. E como projeto a longo prazo, tenho o plano de concretizar um Parque Temático da Crutsana, ecologicamente correto e sempre buscando essa formação.


Que acha dos fanzines como publicação alternativa?
Comecei apresentando meu trabalho fazendo o Zine Quadrimix, notando uma receptividade positiva e abrangente, resolvi partir para uma revista independente, aproveitando sempre o padrão e os moldes do zine. Então pode-se dizer que o Fanzine é um caminho para tornar seu trabalho algo conhecido.


Se você tiver um sonho e realmente acredita nele, largue tudo e faça acontecer!


Como anda a qualidade dos quadrinhos brasileiros?
Se formos falar dos Zines, tem alguns que quero destacar: Manicomics, Irmãos Gabriel e Ba. Em Recife conheci artistas ótimos.


Suas considerações finais:
Como profissional quero deixar uma mensagem para meus colegas e futuros colegas que ainda estão adentrando nesse mercado de apaixonados. Durante 30 anos trabalhei como desenhista e sempre tive meu sonho em paralelo de tornar minha criação (Crutsana) algo real e capaz de andar sozinha um dia. Quando tomei a decisão de que realmente devia me dedicar integralmente a esse projeto, ele deu certo, e continuará dando, pois acredito que a mensagem dele seja forte o suficiente para agradar e cativar o maior numero possível de fãs. Então encerro, citando que, se você tiver um sonho e realmente acredita nele, largue tudo e faça acontecer.


Nossos sinceros agradecimentos ao artista Dom Cabral por nos conceder esta excelente entrevista.