4/08/2009

ENTREVISTA: Sidney de Carvalho

Sidney Carvalho é um desses caras bem determinados, que buscam objetivos sempre. Seu interesse por quadrinhos começou na década de 70 e, de lá para cá, a vocação sempre esteve aflorando junto com seus conhecimentos. Vários prêmios e Menção Honrosas foram conquistados. Através do seu zine Miuzine, seus personagens estão ficando conhecidos no mundo underground. Nesta entrevista ao nosso blog, ele fala sobre esses assuntos, seus projetos e sobre a sua relação com a HQ de um modo geral.

Por: Alex Sampaio

Quem é Sidney Carvalho?
Nasci em Salvador em 02 de junho de 1969. Sou geminiano autêntico, daqueles bem falantes. Adoro rock e apesar de baiano, sou gremista doente.

Como surgiu os Miudins?
Em 1999, tive a idéia de fazer tiras com crianças, mas fugindo do padrão Mônica. Buscava algo diferente, já que na maioria das tiras do gênero, as crianças são bonitinhas e bem alimentadas como o Charlie Brawn, Luluzinha, Pimentinha etc. Decidi inverter tudo.

A década de 70 foi a melhor fase do Mauricio de Sousa na minha opinião!
De que forma?
Resolvi fazer tiras com crianças pobres, na maioria negras, misturando o humor infantil e o humor político social.

Como começou esse interesse por quadrinhos?
Na infância. Lá pelos anos 70 e início dos 80.Lia muito Disney, Hanna Barbera, Mauricio de Sousa e mais tarde, Marvel e DC. Naquele começo o Mauricio foi a minha grande referência, isso ali pelo final dos anos 70, quando seus desenhos deram um salto incrível de qualidade e que para mim, foi sua melhor fase. Na minha opinião ele deve muito ao Jayme Cortez, seu diretor de arte na época e responsável pelo avanço estético nas HQs da Turma da Mônica.

A Maioria das tiras infantis são de crianças bonitinhas e bem alimentadas. Busquei fugir desse padrão!

Você já faz HQ profissional?
Trabalho no Estúdio Cedraz, desenhando a Turma do Xaxado.

Como é trabalhar com o Cedraz?
É muito gratificante trabalhar com ele. Cedraz fala sério no momento de seriedade e na hora da descontração ele brinca bastante. É como se fosse o paizão dos quadrinhistas baianos. Sempre dá força aos artistas contemporâneos, inclusive aos trabalhos individuais dos membros da sua equipe.

Que tem lido ultimamente?
Tenho lido HQ de humor, infantil e cena política.

Tem alguma influência no meio artístico?
Tenho influências do Mauricio de Sousa, Ziraldo, Ademir Pontes ( Estúdio Ely Barbosa ), Edgard Vasquez, Dick Brawne, Angeli e Robert Crumb.

Como surgiu o Miuzine?
O Miuzine surgiu em 2000 devido a necessidade de fazer um trabalho só para os Miudins. Alguns fanzineiros me incentivavam e então a idéia deslanchou e eu resolvi encarar.

Que acha dos fanzines como meio de divulgação independente?
Importantíssimo, principalmente para o quadrinhista iniciante. Ajuda a divulgar o seu trabalho. Ganha-se experiência. Suas HQs são avaliadas pelos leitores, zineiros e artistas experientes.

Quais foram seus primeiros trabalhos?
Comecei em 1986 desenhando o favelado Baiano em parceria com o Gonçalo Jr, que editava na época o fanzine baiano Quadrinhos Magazine. Naquele período, o Bruguelo era o parceiro do Baiano, que me serviu de base temática para desenvolver os Miudins anos depois.
A base dos meus roteiros vem da minha infância na periferia de Salvador!

Fale um pouco sobre seus personagens::
O Bruguelo é um garoto jornaleiro, muito inteligente e contestador. O Toninho é esfomeado. O Balango adora futebol e é muito travesso. O Chiboca vende picolé, é muito mal humorado e gosta de uma boa briga. A Gilmara é romântica e adora novela. A Rosinete, apesar de pobre, é muito esnobe. O Adelmo, é feio, convencido e metido a galã.

Cheguei a mandar vários desenhos para os editores, mas não deu em nada!

Qual a base dos seus roteiros?
Tenho como inspiração a minha infância na periferia, local onde vivo até hoje. Além disso, vejo TV e leio bastante para sempre ter novas idéias.

Já teve a oportunidade de contatar algum editor para mostrar seus trabalhos?
Cheguei a mandar vários desenhos para o Estúdio do Mauricio de Sousa, mas não deu em nada. No ano passado enviei muitas tiras para a revista Calvin & Cia e não recebi resposta.

Como surgiu a oportunidade de trabalhar com o Cedraz?
Conheci o Cedraz em 84, quando fizemos um curso de desenho animado. Eu tinha uns 15 anos na época. Passei a fazer algumas colaborações para ele, desenhando tiras e HQs. Em 97, ao se aposentar, o Cedraz decidiu criar um Estúdio de quadrinhos e surgiu o convite para trabalhar com ele.
Como vê o mercado de quadrinhos nacional?
As editoras apostam sempre nos enlatados, sendo os japoneses a bola da vez atualmente. Acho até louvável a iniciativa da Escala abrindo espaço para artistas brasileiros, mas ainda é pouco. Predomina a mentalidade de investir em HQ com personalidades, tudo acaba em “inho” ou “inha”: Oscazinho, Pelezinho, Senninha, Aninha. Já penso em lançar o Gugazinho, FHCzinho ou ACMzinho.

Vale a pena ser artista das HQs no Brasil?
É dificílimo e desleal. Os gringos chegam aqui com os pacotes prontos. São revistas, álbuns de figurinhas, brinquedos, guloseimas etc. O artista brasileiro bate de frente com esse esquemão. Não devemos esmorecer.

Os japoneses são a bola da vez atualmente!

Que tem feito em termos de quadrinhos no momento?
Além de desenhar o Xaxado, faço as tiras e HQs dos Miudins e tenho participado de alguns salões de humor. Recebi uma Menção Honrosa no Salão de Humor de Volta Redonda e Menção Especial no 1º Salão Internacional de Humor da Bahia, ambas em 2001.

Quais seus projetos para o futuro?
Venho produzindo material para oferecer aos jornais. Aliás, prefiro publicar em jornais do que ter revista em Banca.

Qual o motivo dessa preferência?
Acredito que para um desenhista que ainda não tem personagem conhecido como eu, o jornal é um veículo promocional mais eficiente. O fato de circular diariamente e de que cada exemplar será lido em media por seis pessoas, há a possibilidade de uma resposta mais rápida ao seu trabalho. Com revista a coisa é diferente, que além de não contar com um marketing forte, você tem que se preocupar com distribuição e rezar para que comprem. Caso contrário, o cancelamento da publicação é certo.

Chega-se a conclusão então, que para um bom começo, os jornais funcionam?
Claro! Quando a mônica estreou em revista em 1970, ela já vinha de uma experiência de seis anos em jornais. Agora, com as quedas nas vendas de suas revistas, soube que o Mauricio voltará as origens, investindo pesado em tiras nos jornais. O caminho é esse.

Você acha que trabalhar com HQ no Brasil é mais um hobby que uma profissão?
Infelizmente não temos uma indústria forte de quadrinhos no Brasil. Pouquíssimos artistas vivem somente de HQ neste país. Atitudes como a de Cedraz, por exemplo, em montar equipe de trabalho fora do eixo Rio/SP, alimentam esperanças para um futuro promissor.

Seu recado final:
Gostaria de agradecer aos fanzineiros que nos últimos dois anos deram espaço ao meu trabalho e com isso ajudaram os Miudins a ter destaque no cenário alternativo de HQ.

MinQ: Nossos sinceros agradecimento ao Sidney pela oportunidade de tê-lo como nosso entrevistado.

ASSIM NASCERAM OS QUADRINHOS


Por: Alex Sampaio

Como se sabe, a Alemanha teve Wilhelm Busch, com seus personagens Max und Moritz. A Suíça destaca-se com Rudolph Töpfer e Monsieur Vieux-Bois. A França comparece ao panorama universal com Christophe e sua Famille Fenouillard. A Inglaterra, por sua vez, apresenta a revista Punch como o primeiro veículo de quadrinhos. Os norte-americanos, disseminaram o mito de que é deles a criação dos quadrinhos, surgidos sob a camisola do Yellow Kid, de Richard Felton Outcault. Em comparação com todos esses países, alguns deles verdadeiros baluartes da indústria quadrinhística internacional, seria natural que o Brasil se sentisse inferiorizado. Mas tal não acontece, pois ele também o quer mostrar. Na realidade, contemporâneo aos demais ou até mesmo atuando alguns anos antes deles, se formos mais precisos, já estava no Brasil o caricaturista Ângelo Agostini, publicando nos jornais do Segundo Reinado, em linguagem gráfica, as aventuras de suas diversas personagens.

De uma certa forma, o próprio nome já o denuncia: Ângelo Agostini não era originalmente brasileiro, embora tenha vivido aqui grande parte de sua vida e tenha finalmente se naturalizado em 1888. Na realidade, ele nasceu em Vercelli, na Itália, pouco antes da metade do século XIX e veio para o Brasil quando tinha dezesseis anos. Aqui viveu a maior parte da sua vida, até a sua morte, em 1910. No entanto, apesar de italiano de nascença, ele pode muito bem ser considerado como brasileiro, não apenas porque se naturalizou, mas, também, por ter aqui desenvolvido todas suas atividades artísticas de destaque.

Tendo desde jovem se dedicado à ilustração, Agostini colaborou primeiramente na revista Diabo Coxo e depois em O Cabrião. Possuía uma veia satírica bastante destacada, o que lhe valeu vários entreveros com a polícia do Segundo Império e, depois, com a da nascente República. Seu trabalho marcou esse período, sendo impossível realizar uma análise da história brasileira dessa época sem mencioná-lo e a seu trabalho. No Cabrião, apareceram seus primeiros trabalhos e ilustrações. Deve-se considerar que eles não tinham ainda os elementos característicos dos quadrinhos, como o balão ou a onomatopéia, algo que, aliás, também faltava ao trabalho tanto de europeus como de norte-americanos naquele período. No entanto, pode-se defender que os trabalhos de Agostini guardavam uma semelhança muito maior com os quadrinhos do que os dos autores acima citados. Era, então, o ano de 1864; as histórias em quadrinhos, tais como as conhecemos hoje, estavam longe de existir.

Durante sua atribulada vida, Agostini fez um pouco de tudo no que diz respeito à arte gráfica. Foi ilustrador freqüente de várias revistas, entre os quais se destacam a Vida Fluminense e O Mosquito. Fundou e foi, durante mais de dez anos, o diretor da Revista Ilustrada. No fim de sua carreira, colaborou com a empresa O Malho, responsável pela revista infantil O Tico-Tico, de cujo logotipo foi o idealizador. E foi também a mente criativa por traz de várias personagens fixas, publicadas durante anos em algumas dessas revistas, que estudiosos identificam como pioneiras entre as personagens fixas dos quadrinhos. Duas delas se destacam nesse rol.

Ângelo Agostini publicou sua primeira história com personagem fixo na Vida Fluminense, iniciando em janeiro de 1869. Intitulada As aventuras de Nhô Quim, ou impressões de uma Viagem à Corte, narra as experiências de um caipira perdido na cidade grande. A história é desenvolvida em uma série de situações hilariantes, na realidade constituindo muito mais variações em torno de um mesmo tema que um enredo contínuo com começo, meio e fim. Entre cada um dos episódios de sua série, o autor introduziu como que uma espécie de gancho, que deixava pressupor a continuidade no número seguinte do jornal. Essa modalidade narrativa funcionava muito bem como estratégia de marketing e como elemento de manutenção de uma clientela cativa de leitores, como já haviam descoberto os autores de folhetim alguns séculos antes e como descobririam os syndicates norte-americanos vários anos depois.

É fácil identificar que esse trabalho de Ângelo Agostini já encerra uma novidade para a época: uma proposta narrativa de maior fôlego que poderia até ser considerada, segundo o pesquisador Antonio Luis Cagnin, como "a primeira novela-folhetim de que se tem notícia, ou, como se diz hoje em dia, a primeira graphic novel". Nessa série, Agostini destaca-se no uso de recursos metalingüísticos ou de enquadramentos inovadores para a época, como uma sucessão de vários quadrinhos utilizando um mesmo cenário de fundo, técnica que apenas muito tempo depois foi explorada pelas histórias em quadrinhos. A personagem foi publicada de 1869 a 1872, tendo sido também desenhada por Cândido de Aragonês Faria, que manteve o mesmo estilo do criador original.

Sua segunda personagem fixa, Zé Caipora, praticamente mantém a mesma temática de Nhô Quim. Mudam-se apenas os traços do protagonista, mas permanecem a mesma temática e forma narrativa. As aventuras de Zé Caipora foram publicadas de maneira não muito regular, de 1883 até 1886, na Revista Ilustrada; foram depois retomadas, durante algum tempo, no Don Quixote, e finalmente encerraram suas peripécias no periódico O Malho. Posteriormente, foram publicadas em álbum independente, sendo as histórias redesenhadas por seu autor. Segundo os críticos, Agostini atingiu, em As aventuras de Zé Caipora, um grau de qualidade do desenho muito superior ao que havia atingido em sua obra anterior, As aventuras de Nhô Quim, gerando uma produção artística que ainda hoje se destaca pelas explorações criativas em que seu autor se aventurou. Acima de tudo, Agostini representou um artista que jamais teve medo de ousar. Um exemplo ainda atual.

Durante sua carreira, Agostini e sua arte engajaram-se em várias causas. Liberal convicto, fez uma ferrenha campanha a favor da Abolição da Escravatura, que ocorreu em 13 de maio de 1888, e pela República, proclamada em 20 de novembro de 1889. Além disso, era a favor da liberdade de culto no país e contra a repressão da população. Em reconhecimento a sua importante contribuição para o fim da escravatura, recebeu do político e abolicionista Joaquim Nabuco o título de cidadão brasileiro. Nesse ano entretanto, ele se envolveu em um escândalo. Casado e com dois filhos, Agostini se apaixona por uma aluna de desenho chamada Abigail e a engravida. Para evitar mais problemas, ele vende a Revista Ilustrada em 1888 e parte para a Europa no ano seguinte. A revista ainda duraria até 1898.

Embora Ângelo Agostini não tenha utilizado alguns dos recursos comuns às histórias em quadrinhos de hoje em dia, como o balão e a onomatopéia, desconhecidos em sua época, ele deve, com toda justiça, ter lugar assegurado entre os pioneiros da arte dos quadrinhos. Nada fica a dever, em termos de qualidade, a qualquer artista gráfico de sua época. Em alguns casos, até, chega mesmo a suplantá-los com grande vantagem. Recuperar a obra artística de Ângelo Agostini é tarefa que apenas aos poucos e arduamente vem sendo realizada no país, principalmente devido ao péssimo costume de se exaltar demasiadamente os valores alienígenas e fechar os olhos às belezas que internamente se possui. Algumas exposições já foram organizadas no país, mostrando seu trabalho, visando mostrar às novas gerações os meandros de uma produção artística inigualável em sua época.

Publicações que recuperam o trabalho desse artista, indiretamente como acontece em As barbas do imperador, de Lília Moritz Schwarcs , ou de maneira facsimilar como realizou a UNESP/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo com a publicação de coletânea contendo tudo o que foi publicado no Cabrião, são iniciativas oportunas e necessárias. Também meritória é a comemoração, a cada 30 de janeiro, do Dia do Quadrinho Nacional, tradição instituída pela Associação de Quadrinhistas e Cartunistas do Estado de São Paulo (AQC-ESP), desta forma celebrando o aniversário do início da publicação de As Aventuras de Nhô Quim.

Quadrinhos sem futuro

Por: Alex Sampaio*

Apesar de muito estardalhaço na mídia e todo noticiário especulativo em torno de uma revitalização dos quadrinhos, principalmente com grandes sucessos que o cinema proporciona a 8º arte, em detrimento dos personagens de grande apelo popular, a realidade das HQs são bem diferentes dos que muitos acham e acreditam. Os quadrinhos sempre estiveram associados a diversão, mas muitas vezes com uma conotação inferior ou tratado com ojeriza. Lamentavelmente, vivemos numa nação sem princípios educacionais e notadamente sem costume de leitura. Entende-se assim, que abrangendo a conjuntura econômica e social, chegamos a números lastimáveis para uma população tão grande quanto a nossa.

Já vivemos com tantas bestialidades no nosso país e saber que somos tão medíocres na leitura, é de arrepiar. Estamos sempre remando contra a maré. A fama do Brasil na imprensa estrangeira já não é boa. O país é associado à destruição das florestas, violência contra a mulher, a infância abandonada chega a níveis intoleráveis, prostituição infantil, trabalho escravo em pleno Século XXI, tráfico internacional de mulheres e drogas, a doenças endêmicas e à violação de direitos humanos. Tem um ditado que explica bem essa questão cultural: O país que não educa seu povo, jamais será desenvolvido.

Como fazer um povo ler? Como acreditar numa população, quando um dos princípios básicos para o desenvolvimento da leitura acontece na escola e a nossa escola pública está completamente deteriorada? Nossas HQs sofrem com estes descasos, pois o costume da leitura começa cedo e nossos quadrinhos poderiam estar nas salas de aula, educando e convivendo com os futuros leitores e prováveis colecionadores de gibis. Como não existe uma filosofia voltada para leitura nesse país, sabemos que poucos migrarão para a 8º arte.

Conviver com tantos percalços, é desanimador. Toda arte busca um público, pois um artista sem público é de fato um desanimado sem ver o alcance da sua arte. Isso se reflete em vários setores e não somente nos nossos quadrinhos. Percebe-se perfeitamente que a cada ano o público leitor se afasta. Vários fatores estão ligados a esse distanciamento, desde o custo elevado de uma revista em banca, a péssima distribuição de renda do país. Acontece, que muito poderia ser feito para debelar esses inconvenientes tropeços, principalmente com uma política de subsidio aos produtos ligados a arte, educação e entretenimento. Só assim seriamos primeiro mundo.

*Alex Sampaio é colecionador de gibis, editor do zine Made in Quadrinhos e colunista de diversos sites na Internet.

3/09/2009

ENTREVISTA: Daniel Brandão


O criador do personagem O Noite e editor da revista Manicomics, Daniel Brandão, fala do início da sua carreira, das suas influências nos quadrinhos, da febre da HQ cearense, dos seu contato com editoras, do futuro do quadrinho brasileiro e da aceitação dos leitores ao seu trabalho nessa sensacional entrevista ao nosso blog:

Por: Alex Sampaio*

Antes de mais nada, é bom que os nossos leitores conheçam um pouco sobre o Daniel Brandão:
Nasci em Fortaleza em 03 de novembro de 1975 e, pelo que me lembro, sempre gostei de desenhar. Estudei Comunicação Social na UFC, sou sócio da Graph It Art & Software, uma empresa que lida com informática educativa basicamente e quadrinhos.

E os quadrinhos, os desenhos, como surgiram seus primeiros contatos com esse mundo?
Desde os sete anos de idade já lia quadrinhos ( Mauricio de Sousa, Trapalhões...) e já pintava quadros infantis nessa época e gostava muito de desenhar. Aos nove anos fui apresentado por um amigo a um mundo fascinante: os universos Marvel e DC. Desde então não pinto mais, apenas desenho.

Foi assim que surgiu seu interesse por HQ?
Sim. Aos dez anos produzi minha primeira HQ: Pantherman! Era tão ruim que foi esquecida numa viagem.

O que você lia nessa época?
Lia o máximo de quadrinhos que caía em minhas mãos, mas o que realmente colecionava era Marvel e DC. Sempre gostei do Demolidor.

E as inspirações para os roteiros, de onde vêm?
Os meus roteiros são traduções do que vivo e observo ao meu redor. Tanto os cômicos como os trágicos, surgem de acontecimentos ligados a mim de alguma forma. O Noite, por exemplo, é uma parte de mim. Agora eu quero deixar claro que para passar qualquer idéia para o papel, no meu caso, requer muita transpiração. Não é fácil construir um bom enredo.

Falando sobre O Noite, como ele surgiu?
O Noite surgiu quando eu tentei entrar na Oficina de Quadrinhos da UFC. Era necessária a apresentação de uma HQ de uma página com começo, meio e fim para ser aluno na Oficina. Eu tinha uma semana de prazo para isso e sem nenhuma idéia na cabeça. Daí veio a solução: para uma HQ de uma página, nada mais simples que um assassinato. Eu não tinha ainda nenhum personagem legal que fosse capaz de matar. Então criei um: O Noite. Era 1995 e eu fui aprovado.

E os seus colegas ( JJ, O Ed Carlos, O Eduardo, O Geraldo etc. ) como surgiu esta parceria?
O JJ foi o meu monitor na Oficina de Quadrinhos. Quando acabei o curso também virei monitor e ficamos amigos. O Ed Carlos foi aluno junto comigo e o Eduardo era grande amigo do JJ e frequentava a Oficina. O Geraldo eu conheci junto com o JJ no curso do Al Rio. Hoje, JJ, Geraldo e eu formamos o Graph It Stúdios. O Eduardo trabalha com a gente na área de software educativos. O Ed Carlos enveredou por outros caminhos.

E a revista Manicomics, como surgiu esta iniciativa?
A Manicomics é um sonho antigo. No começo de 1995, a turma que fazia Oficina estava descontente com o conselho Editorial da revista Pium, uma publicação da Universidade. Os quadrinhos que eram aceitos na época, ou eram muito regionalistas ou muito “cabeça” e, nós queríamos fazer algo que realmente gostassemos. Daí nos reunimos ( Ed Carlos, Sérgio Otomo, Layrus, Eduardo, Dudu, Asteka, Fonseca, JJ e eu) e surgiu a idéia, o nome, a linha a ser seguida etc. Acontece, que por motivos religiosos, financeiros, filosóficos etc. sobrou apenas o JJ, Eduardo, eu e depois o Geraldo se juntou com a gente. Com a força de vontade e com a grana deste último grupo, a idéia não morreu, o sonho não acabou e a Manicomics nº 0 saiu em outubro de 1996.

Outro detalhe, é sobre a revista Capitão Rapadura. Como pintou esta idéia?
Mino, o criador do Capitão Rapadura me conheceu em março de 1996. Ele me falou do projeto de produzir uma revista do Rapa, personagem criado em 1973 e da necessidade de formar uma equipe para isso. Então, convidei o JJ, o Geraldo e o Eduardo e fomos incumbidos de fazer um teste: produzir quarenta páginas de quadrinhos cada um em um mês. Conseguimos e fomos aprovados. Hoje, Mino, Geraldo, JJ e eu ( o Eduardo não deu para continuar ) e mais recentemente o Valdijúnio, formamos a equipe que produz a revista do Capitão Rapadura. Escrevemos, desenhamos, arte-finalizamos, colocamos as letras e em breve, o colorido.

Qual o segredo cearense para se produzir tantas revistas próprias, a exemplo da Manicomics, Capitão Rapadura, Pium, Garage Comics, dentre outras ?
DB: Acho que o Ceará ainda não atingiu o sucesso em termos de quadrinhos. O preconceito é grande e o público leitor é pequeno. O fato dessas publicações citadas existirem, é em consequência da força de vontade e do amor de algumas pessoas pelos quadrinhos. E olha que eu acho que a HQ no Ceará está passando por um dos seus melhores momentos...

Você já procurou ou foi procurado por alguma editora para mostrar os seus trabalhos?
Já procurei algumas editoras, sim. Visitei os Estúdios Maurício de Sousa, fui a Editora Escala, a Editora Trama, fui a Metal Pesado e claro, a Editora Riso, através do Mino. Fui bem tratado em todos as editoras, mas por enquanto, só consegui trabalho na Riso.

Qual a perspectiva do quadrinho brasileiro?
A melhor possível. Tenho esperança que com esse novo BUM! Que está acontecendo agora no quadrinho nacional, surgindo novas publicações, com novos artistas talentosos, com maior espaço na mídia e leitores deixando de se esconderem, o quadrinhista venha a ser reconhecido como um profissional e a HQ como uma arte. As pessoas estão abrindo os olhos para a importância desse meio de comunicação. O quadrinho nacional ainda tem muito chão pela frente até chegar ao nível ideal, mas os primeiros passos estão sendo dados. Resta torcer para que não haja surpresas desagradáveis na economia do país.

Existe futuro para o artista brasileiro em nosso país, ou teremos sempre que bater às portas de editoras americanas?
Acho que o futuro está ligado a consolidação do mercado brasileiro. Não vejo nenhum problema no fato de artistas brasileiros trabalharem para o mercado americano. Tenho esperança que esses artistas em breve terão a mesma oportunidade aqui no Brasil.


O fanzine é o meio mais honesto que existe para propagar a arte!

Que tem feito ultimamente em termos de HQ?
Temos os nossos trabalhos com a Graph It Art & Softwares, onde ilustramos softs educativos, livros didáticos e coisas do gênero. Na Graph it fizemos um montão de coisas. Muitas ilustrações publicitárias, cartilhas, trabalhos institucionais, quadrinhos encomendados, autorais, o Manicomics, etc. Participamos em 1997 de um concurso nacional de quadrinhos promovido pela ABRA (Associação Brasileira de Arte) e fomos classificados. Isso nos encorajou a viajarmos para São Paulo de ônibus. Uma aventura! Lá conhecemos uma porção de gente importante: Flávio Colin, Shima, Marcelo Campos, Otávio Cariello, Roger Cruz, dentre outras feras. Distribuímos muitos Manicomics e fizemos muitos amigos. Em 1998 abrimos a primeira turma do curso de histórias em quadrinhos da Graph it. Não esperávamos fechar uma turma sequer, mas graças a Deus a procura foi enorme e até hoje eu dou aula de quadrinhos e desenho.

Que acha dos fanzines como publicação alternativa?
Simplesmente fundamentais. É a base de tudo em termos de quadrinhos, de movimento underground, movimento de classes, movimentos alternativos, etc. Puxando mais para as HQs, acho que é um grande aprendizado. O fanzine é o meio mais honesto que existe para propagar arte, idéias e informações, pois não visa lucros, é feito com amor, não tem censura e nem restrições de editor, empresário, político, etc. É um meio independente e livre, por isso, sua grande importância.

Como está sendo a receptividade dos leitores ao trabalho de vocês?
O feed back ao nosso trabalho é muito bom. Recebemos muitos elogios. Gostamos de receber críticas, pois só assim podemos ter mais condições de acertar.

Suas considerações finais:
Gostaria de agradecer esse valioso espaço e queria dizer que me sinto honrado pelo seu interesse ao nosso trabalho. Espero que todos os fanzines se mantenham firmes e cresçam cada vez mais. Vida longa as Histórias em Quadrinhos!

MinQ: Nossos sinceros agradecimentos ao Daniel Brandão pela atenção e pela brevidade em nos atender.

*Alex Sampaio é colecionador de gibis, editor do zine Made in Quadrinhos e colunistas de diversos sites na Internet.

ONDE EU ESTAVA???



Por: José Salles*


O ano era 1974. O mundo, assim como hoje, estava muito – até mais – conturbado. Falava-se em dètente, mas todo mundo ainda morria de medo de uma guerra nuclear. O medo de uma crise econômica mundial, do petróleo com mais uma guerra islâmica-isrraelense. Nos Estados Unidos, o presidente Richard Nixon é obrigado a renunciar depois do escândalo do watergate. No Zaire, Muhamad Ali põe George Foreman à nocaute. Aqui no Brasil, o partido do governo militar, a Arena, leva uma surra nas eleições legislativas e o presidente Geisel anuncia uma abertura lenta e gradual. O Palmeiras derrota o Corinthians e trona-se o campeão paulista da temporada.


Mas onde eu estava no meio dessa confusão toda? Estava com sete anos de idade, começando a frequentar a primeira série e hipnotizado pela nova aquisição de minha família: a TV à cores. Eu que já me tornara um videota e já curtia a TV preto e branco, ficara embasbacado. Assistia os heróis Marvel, os filmes de guerreiros, cawboys, desenhos animados e jogos da copa.


Nunca descuidei da escola. Aprendi a ler. Lia o gibi do Batman. Precisamente o Almanaque Batman de 1974 da Ebal. Meus pais liam gibis para mim. Lembro de Batman, Homem Aranha, dentre outros.


Nas férias, na casa da vovó tinha um sebo de gibis, onde comecei minha coleção que guardo até hoje. Capitão América, Thor, Homem de Ferro, Hulk, Homem Aranha, Príncipe Submarino, Batman e Superman.


Crescendo, virei um "aborrecente", mas não abandonei os gibis. Lia de tudo, mas gostava mesmo era da Marve/DC. Talvez até eu gostasse mais do Asterix, Lucky Luke, Mortadelo & Salaminho, mas não admitia. Virei universitário e no fim de 1980, apareceu Darknight, O Cavaleiro das Trevas, a fantástica história de um Batman envelhecido e neurótico, que mudou os rumos da HQ mundial. Daí surgiram as graphic novel como Watchmen, Orquídea Negra, V de Vingança, Asilo Arkham e tantos outros.


Nesta mesma época comecei a tomar contato com os quadrinhos marginais, graças a Chiclete com Banana, Circo, Geraldão, Animal e outras. Graças também a essas revistas, conheci vários autores incríveis, como Lourenço, Mutarelli, Marcatti, André Toral e o estrangeiro Robert Crumb.


* José Salles é diretor de curtas, estudioso de HQ, crítico de cinema e editor de quadrinhos.

2/13/2009

ENTREVISTA: José Salles


Por: Alex Sampaio

Editor do extinto e polêmico zine Os Mardito, José Salles é um estudioso confesso na arte cinematográfica. Seus comentários sobre cinema são de uma profundidade espantosa, na medida em que abrange principalmente a esfera underground. Nesta excelente entrevista ao nosso blog, ele fala da sua arte de escrever, das suas quadrinizações, do seu amor pelo cinema nacional dos anos 60/70, dentre outras revelações. Confiram o bate-papo:

MinQ: É bom que nossos leitores conheçam um pouco sobre o José Salles:
Salles: Mais um egocêntrico...

MinQ: Os Mardito, seu zine que se tornou polêmico pelo conteúdo forte, fez com que você ficasse bastante conhecido no meio fanzinístico. Por que ele deixou de ser publicado?
Salles: Os Mardito terminou principalmente devido a uma viagem ao exterior, mas já haviam planos para “matá-lo” antes mesmo de viajar...enfim, terminou, mas não terminaram meus projetos em fanzines.


O fanzine é o combustível da alma e nossa liberdade de expressão incontida!


MinQ: Com a parada do zine Os Mardito, seus quadrinhos também foram afetados. Quando veremos novas hqs suas?
Salles: Há planos para novas hqs, sim. O Wace ( Waldivar Cesar ) fez parceria comigo em dois zines de contos e está trabalhando na quadrinização do Anjo do Mal.

MinQ: Qual sua opinião sobre os fanzines como meio de divulgação underground?
Salles: Ah, fanzine é o combustível da alma. Liberdade de expressão incontida, inesgotável, inestimável...

MinQ: Existe uma seguimentação muito forte entre os fanzines. Isso ajuda a divulgar determinada arte ou seria melhor uma globalização das publicações?
Salles: Acho que o fanzine tem sua especialidade: circulação off-mídia, fora da mídia. Muitas vezes o fanzine acaba virando revista e perde sua força, vira um “caros amigos” da vida.

MinQ: Quais quadrinhos tem lido ultimamente?
Salles: Ralf Konig e Lourenço Mutarelli.

MinQ: Existe futuro para a HQ nacional ou teremos sempre que conviver com o que vem de fora?
Salles: Claro que existe. Veja aí, temos o sensacional Emir Ribeiro, que ainda não tem o devido respeito da mídia – foda-se a mídia – mas que tem o nosso respeito, o Edgar Franco, o Renato Coelho, enfim, são tantos que não vou conseguir citar todos. E espero conviver com as coisas boas que vem de fora também, tipo Ralf Konig e Robert Crumb.

MinQ: Seus textos sempre foram o seu forte. Novas quadrinizações deles virão por aí?
Salles: Sim. Tenho muitos planos a respeito. Tenho mantido contatos com o Francis Brandão e deve vir mais coisa por aí.

MinQ: Uma das grandes quadrinizações sua foi a hq Pé de Moleque, com arte do Francis Brandão. De onde vêm suas inspirações para escrever?
Salles: Minha inspiração para escrever vem da vida, da minha e dos outros, dos jornais, das notícias. Charles Buckowisk certa vez escreveu que jamais faltará assunto e/ou inspiração para se escrever. Concordo com o velho bebum!



O Cinema Nacional Entrou no Obscurantismo no Governo Collor!



MinQ: Seus comentários sobre filmes são bem aceitos pelos leitores. Qual sua técnica de avaliação como crítico?
Salles: Desde criança fazia um pequeno arquivo comentando os filmes a que assistia. O espírito dos meus comentários é mais ou menos aquilo mesmo que falo, de maneira simples, com as impressões que tive do filme. Quase não tenho livros sobre cinema em casa, por isso, alguns equívocos aparecem. Não tem essa de ‘entendido’ no assunto. Assisti a milhares de filmes. Adoro cinema e resolvi escrever a respeito descompromissadamente.

MinQ: Qual sua opinião sobre o cinema nacional?
Salles: Adoro assistir a filmes brasileiros, principalmente as produções dos anos 60/70. À partir dos anos 80, a coisa começou a naufragar, até chegar ao obscurantismo total com o governo Collor. De uns anos para cá, a coisa voltou a andar e os filmes voltaram a ser produzidos. Mas bem poucos – ou quase nada – que empolgasse o público. Andaram aparecendo alguns bons, como Um Céu de Estrelas, Os Matadores, Central do Brasil e Boleiros.

MinQ: Como tem sido sua experiência como diretor e roteirísta de filmes?
Salles: Muito divertida. Me dedico muito a isso.



O Cinema de Curta Metragem no Brasil tem Produções de Muito boa Qualidade!



MinQ: Que avaliação se faz a sua participação na comédia Fatman & Robada de 1977?
Salles: Eu não participei desse filme, embora conheça o diretor/roteirista Rogério Balbino e muita gente envolvida na produção. É um ótimo filme. A grande suspresa do cinema independente do ano passado.

MinQ: Como anda o mundo do cinema de curta metragem do Brasil?
Salles: Melhorando. Além da Canibal Produções, do Souza e Baiestorf, há ainda em Chapecó, a Extreme Produções, do Boni Coveiro e do Zambiasi, que já produziram curtas e longas em VHS. Há também o Cleiner Miceno, de Sorocaba, da Banda Joe Coyote, que vem produzindo curtas de muito boa qualidade. Há mais gente, que me desculpem aqueles que não foram citados.

MinQ: Percebe-se que o mestre dos curtas brasileiros é o Petter Baiestorf. Quais outros podemos destacar?
Salles: O Petter Baiestorf é o mestre mesmo. É o precursor de uma nova estética. Em um tempo em que todos lamentavam o fechamento da Embrafilme, ele juntou os amigos, pegou uma VHS e foi fazendo seus filmes. E não posso esquecer de citar outro precursor: O Cesar Souza, que fez vários curtas em super-8 e hoje é o parceiro indispensável de Baiestorf.



Com uma idéia criativa, basta um ou dois atores para se ter uma grande cena!


MinQ: O advento das câmeras digitais, o próprio videocassete e as câmeras em VHS trouxeram a possibilidade de se fazer filmes a baixo custo. Como anda a qualidade dessas produções independentes?
Salles: Estão melhorando muito. Muitas vezes a criatividade supera as limitações técnicas. É o que acontece na produção independente nacional. As vezes, basta um ou dois atores, uma idéia criativa e pronto, temos uma grande cena. Prefiro mil vezes assistir a um filme de produção barata como O Monstro Legume do Espaço, a produções milionárias e pseudo-histórica como A Guerra de Canudos.

MinQ: Que acha do Rubens Ewald Filho como crítico de cinema?
Salles: Escreve muito bem. Eu era um ávido leitor de suas publicações. Só que ele é um cara que sempre teve rabo preso, pois trabalha para determinadas redes de TV e não se atreve a comentar mal sobre os filmes exibidos por esses meios de comunicações. Certa vez, há muito tempo, ele estava lançando um livro e eu fui a sua noite de autógrafos. É uma pessoa muita atenciosa e simpática.



O Rubens Ewald Filho sempre teve o rabo preso as Redes de TV!



MinQ: Como tem visto esse boom! Do cinema nacional, com várias produções em andamento e muitos prêmios sendo ganho?
Salles: Prêmios não servem para nada, a não ser aumentar o ego de quem o ganha. De qualquer forma, a coisa está menos ruim do que nos tempos do Collor, período que não haviam produções em andamento. Pena que a maioria dos filmes nacionais produzidos atualmente queiram seguir o “padrão-global-de-qualidade-politicamente-correta”, e isso nos deu filmes medonhos como Carlota Joaquina, O Que é Isso Companheiro, Pequeno Dicionário Amoroso, Guerra de Canudos, etc. Felizmente há exceções, como os citados anteriormente...



Prêmios não servem para nada, apenas para aumentar o ego de quem o ganha!


MinQ: Suas considerações finais.
Salles: Puxa cara, acho que já falei demais. Grande abraço aos seus leitores.

Nota: O José Salles é um cara super legal e muito atencioso. Nossos sinceros agradecimento pela entrevista e pela atenção em nos atender.

Em busca do lucro perdido


Por: Alex Sampaio*

Com a crescente dilapidação dos quadrinhos, uma das grandes consequências, entre tantas outras, nefastas, está na descaracterização dos gibis de super-heróis clássicos, que têm agora suas estruturas originais cada vez mais pulverizadas pela nova estética de video clip. Se antes, quando a HQ do Tio Sam era respeitada e havia o interesse do leitor em acompanhar as histórias, as coisas já não andavam para as editoras, imagine nos dias atuais, com tantos suplícios para se organizar uma cronologia perdida no tempo, e a crescente cobrança de vendas?
Acontece, que os estúdios buscam hoje um mercado mais imediato, semelhante a indústria cinematográfica, gerida com braço forte e com vasto apelo comercial, com objetivo de lucro certo e rápido. Com esse pensamento, desapareceram os estilos, as peculiaridades em relação a estrutura harmoniosa de cada personagem, o sentido de linha de cada herói, tudo isso substituído pela "tesoura giratória" dos estúdios que regem a circulação das revistas. Isso, independente de ser uma obra dita superior, como de um Stan Lee, ou da mais pura mixórdia de ocasião, os procedimentos dos executivos são os mesmos em busca do lucro perdido.
Com gestos semelhantes a uma automação bancária, as novas idéias giram em torno de ação do início ao fim, com muita imagem repleta de cores vivas, cortes rapidíssimos, feitos sem dúvida, para atender um mercado de gosto muito duvidoso, como o americano, que não suportam histórias longas e que tem um público analfabeto em linguagem de quadrinhos dos modelos atuais.
O modelo de super-herói que eles nos impõem hoje, fica restrito e nada pode se exigir atualmente. Seria interessante que se ampliasse, por assim dizer, novas estéticas para atualizar algumas imagens, mas que isso não se tornasse uma paranóia, provocando uma massificação, que poderia se chamar de "metástase" capaz de levar os quadrinhos a anularem suas origens e suas peculiaridades de reacender o gosto pela leitura.
É assustador constatarmos hoje, a mediocridade das HQs, quando comparamos com o que já tivemos no passado, estas sempre bem feitas, com criatividade, senso de oportunidade, condicionada, dentro do estilo noir de cada personagem do momento. Pobre dos que consomem tamanhas obras fajutas, levando ao cérebro um forte fator de embrutecimento e ignorância, onde a contemporaneidade " escarfunda " na lama pela indisponibilidade de novos conceitos, idéias e ousadia em abdicar do que propõe uma urgência financeira.
Com a decadência dos estúdios do Tio Sam, que possuiam estilo, onde poderiam até ser chamados de grife, Marvel e DC afundaram em dívidas, com descaracterização, ficando o negócio de quadrinhos gerido de forma imatura, zombando da inteligência do público consumidor. Executivos que de nada entendiam de HQ, passaram a determinar quantos títulos deveriam circular, quantos heróis seriam criados e lançados, enfim, quantos musculosos e peitudas deveriam sair por ano. Uma planilha semelhante à linha de montagem de uma fábrica e o que se estava em jogo não parecia nada diferente da salsicha que acompanha o hot-dog do fast-food. Um verdadeiro lixo que se derrama nas páginas controladas por essa indústria do chamado herói de ocasião. O mais triste é ver o mercado brasileiro totalmente aberto ao consumo, dominado na distribuição, restando apenas a poucas tiragens abnegadas que cedem espaço a obras de outras editoras de menor porte.
Os heróis são montados dentro de um mesmo padrão, dentro de uma mesma linguagem, como já frisamos, os quadrinhos seguem assim. Porque estão em mãos do mesmo controle, que apenas entende o ofício de ganhar dinheiro, money, lucro, de preferência rápido. Antigamente não era a mesma coisa, onde havia uma temática lógica, havia uma elaboração, feita por pessoas que sabiam saborear, existia cadência de enredo, existia prazer em fazer e prazer em ler, antes de tudo, havia criatividade.
O prazer de ler super-herói acabou. Basta de aborrecimentos, de ter que suportar neuroses de roteiristas, que se apresentam sempre como novos talentos e nunca imitadores. Esses malditos gênios da atualidade, que nos atormentam com tantas aberrações, deveriam sucumbir junto com suas criações utópicas. Deve-se concluir então, que os quadrinhos de hoje são muito piores que os de antigamente??? Nunca!!! Os de antigamente nunca foram ruins!!!... O leitor de hoje virou um mero consumidor. Tristes tempos!!!!!!


*Alex Sampaio é colecionador de gibis e editor do fanzine Made in Quadrinhos

2/12/2009

ENTREVISTA: Dom Cabral

Dom Cabral é um daqueles artistas persistentes e que busca sempre um ideal. Criador dos personagens Crutsana, Crustacius e toda turma dos Defensores da Natureza, Cabral possui um talento invejável. Sua página na Internet é super bem feita e através dela, suas criações fluem e chegam ao mundo, mostrando a qualidade dos seus traços e das suas idéias. Nessa excelente entrevista ao nosso blog, ele nos conta um pouco de como tudo começou, seus planos e sobre suas afinidades com os quadrinhos. Confiram o bate papo:

Por: Alex Sampaio

Quem é Dom Cabral?
Nasci em Blumenau, SC. Há 32 anos trabalho como desenhista, minha especialização é Desenho Têxtil, profissão que segui na maior parte de minha carreira, porém hoje moro em Fortaleza.Trabalhei em empresas do ramo de estampas, por exemplo, Artex, Hering, Marisol, entre outras. Como artista plástico fui sócio-fundador de 2 associações, Bluap em Blumenau, e Ajap em Jaraguá do Sul. Mas agora me dedico ao projeto de vida (sonho) que é fazer a Crutsana viver para sempre.


Como surgiu o interesse pelos desenhos e conseqüentemente pelos quadrinhos?
Sou do tempo que se trocava revista na porta do cinema. Meu pai para dar inicio a minha coleção comprou uma série de revista, entre elas, Mickey, Pato Donald, e a partir daí, começou minha paixão pelos quadrinhos, principalmente Disney.


Que tem lido em termos de HQ ultimamente?
Muitos fanzines, feito principalmente, no Ceará, ou aqueles que recebo via correio. Quero salientar o Manicomics, muito bom por sua diversificação e qualidade. Também o Bone, criado por Jeff Smith. Mas não deixo minha paixão pela Disney, em especial, Mickey.


Fale um pouco sobre Crutsana, Crustacius e a Turma dos Defensores da Natureza:
Tudo começou no sonho de fazer um desenho animado com meu mestre e amigo, Roberto Sombrio. Trabalhamos durante anos, juntos, na Artex. Ele, pesquisou as lendas brasileiras e eu fui busca algo diferente, fui observando que os ratos e os patos, já haviam sido aproveitados com o melhor. Hanna-Barbera já havia feito todos os outros animais e, em minha opinião, Mauricio de Souza criou as melhores crianças. Somente restou o fundo do mar, daí então fiz pesquisa em enciclopédias e encontrei um ser diferente, era o Carangueijo-Eremita (Ermitão), comecei então a desenhar procurando simplificar os traços. Daí surgiu Crustacius e Crutsana em 1974.


Hanna Barbera fez todos os animais, Mauricio de Sousa criou as crianças e só me restou o fundo do mar. Daí surgiram Crustacius e Crutsana em 1974!


Sua identificação com o tema das suas HQs vem de alguma militância ecológica?
Não, de jeito nenhum. Bem, minha maior preocupação veio, em torno de 20 anos atrás, quando em minha cidade natal comecei a notar que o rio que eu pescava, com amigos e família, estava mudando de cor, daí veio essa preocupação com o meio-ambiente que desde aquela época só fez aumentar.


Como tem sido a aceitação dos leitores aos seus personagens?
Impressionante. Creio que as crianças se identificam bastante com o fato de meus personagens se assemelharem a pequeninos fofinhos, em resumos, crianças também. Sempre após fazer minha apresentação sinto que cada vez mais as crianças se apegam a eles, até por que recebo muitos e-mails e sou abordado pelas crianças nos colégios me perguntando sobre os personagens. Além disso, tenho a felicidade de ouvir as crianças dizendo para mim após a Crutsana se apresentar que querem ser defensores da natureza, que é uma espécie de associação que pretendo criar no futuro estando muito próxima de um Clube, seria o Clube da Crutsana e os Defensores da Natureza.

Você também ministra palestras. O que aborda basicamente nesses encontros e como é a receptividade da platéia?
Bem, na verdade não são palestras, se parecem mais com apresentações. Essa apresentação, atualmente, conta uma história onde o título é Lixo no Lixo, ela é contada na forma de desenho animado, e narrativa de um Contador de Histórias, no caso eu. Dentro dessa história é contado sobre Reciclagem, a importância de se colocar o lixo no lixo e sempre se preocupando em separar adequadamente cada tipo de resíduo. A receptividade das criança chega a ser emocionamente, já que ela pedem tanto para se repetir a apresentação, e tenho notado que sempre tende a aumentar. Outro fator que indica tal receptividade é o fato de receber tantas ligações de escolas e profissionais que lidam com educação infantil sempre pedindo meu comparecimento, seja para conversar, como também, para marcar uma apresentação. Outro fator que mostra a receptividade é que sempre ao término da apresentação ofereço a revista para venda, mas de alguns meses para cá, nem chego a oferecer, as crianças já me abordam na procura de uma nova revista.


Como todo entrevistador de artista nacional, uma pergunta não pode faltar: Você já procurou alguma editora para mostrar seus trabalhos?
Não, não fui. Porém está em andamento um projeto de lançamento junto uma editora local em Fortaleza para o lançamento de 01 livro infantil, baseado na apresentação é feita nas escolas. Porém, o leque está se abrindo e estamos nos preparando para ofertas de editoras que queiram entrar como patrocinadoras de nossa revista infantil, jornal e novas apresentações. Também está sendo uma revista com alto padrão de qualidade, onde seu objetivo principal é o mercado americano e europeu. Seria uma Revista em Quadrinhos, dividida em 3 partes, sendo que as duas primeiras já estão prontas, este trabalho é uma parceria entre eu e Daniel Brandão Estúdio, uma empresa do ramo local de Fortaleza.


Sua revistinha Crutsana tem um perfil direcionado ao público infantil. De fato a HQ brasileira é mais forte junto a esse segmento?
Acredito que sim, afinal, Mauricio de Souza, Turma do Xaxado (Cedraz - BA) e a própria Disney, são o mercado principal do Brasil. Mas eu creio que esse cenário está mudando, novos quadrinhos aparecem a cada dia e eu vejo eles, não digo tomando, mas reinvidicando um espaço que a muito tempo não lhe é cedido.


O que falta para o quadrinho nacional difundir mais pelo país?

Projetos mais sólidos, e que demonstrem características definidas. Uma personalidade própria. E daí, cada um partir para buscar seu espaço no mercado, como estou fazendo atualmente, e com sucesso.


Existe futuro para o artista brasileiro em nosso país, ou teremos sempre que bater às portas do mercado americano?

Existe sim. Como disse na pergunta anterior, é necessária uma responsabilidade e que o profissional abrace a idéia como se ela já fosse dar certo, afinal, a personalidade e a maneira como você apresenta seu produto é essencial para que o público, cito investidores e consumidores, acredite também.


O futuro do artista brasileiro depende de sua responsabilidade e de abraçar a idéia acreditando que vai dar certo!


De onde vêm suas inspirações para seus roteiros?
O cotidiano. Existe exemplo maior para se aplicar nossa criatividade do que simplesmente olhando para o mundo? É a base do conhecimento, a observação e busca concretizar isso de todas as formas possível, eu uso minha arte dos quadrinhos.


A Internet é realmente uma alternativa de mercado para os artistas de HQ?
Bem, antigamente quando se trabalhava com o não-local era um processo lento e que as vezes gerava ruídos de comunicação, afinal, eram cartas e telefonemas, creio que a internet acelerou esse processo e tornou o mesmo bem mais eficiente, então na verdade o mercado não mudou, apenas se tornou mais rápido, mas ainda há demanda para nossos profissionais, e ao mesmo tempo, se a demanda aumenta, a quantidade de profissionais também aumenta, em resumo, está praticamente no mesmo nível de concorrência.


Como anda a audiência do seu site na Rede?
Depois que comecei a fazer as apresentações, o website da Crutsana começou a ser mais visitado, porém ele não é a ferramenta principal que está divulgando meu trabalho. Recebi e-mails de propostas, mas em números, não se compara com o contato pessoal. E isso somente aconteceu depois que comecei a fazer as apresentações, por que antes, era como um papel no chão, algumas pessoas visitavam, mas marca alguma ficava. Hoje já posso dizer que meu site é visitado com certa freqüência, por isso aviso, entrem mais, em breve faremos uma revista on-line, novos jogos e Loja On-Line, mandem e-mails que estamos organizando tudo.


Há espaço para outros artistas na Crutsana?
Sim. Hoje conto com a colaboração de Ronaldo Mendes, um desenhista, que faz os quadrinhos para o projeto da Crutsana, o Everton que começou a fazer agora as animações da Crutsana. Mas não pode parar por aí, por isso estamos trabalhando no lançamento do Jornal e em concretizar a periodicidade da Revista da Crutsana, tornando-a mensal. E posso dizer com plena certeza, é difícil encontrar roteiristas dispostos a trabalhar nesse nicho de mercado, para esse público, que acredito ser uma potencialidade.


Que tem feito ultimamente em termos de quadrinhos?
Bem, sem querer ser exclusivo. Crutsana e os Defensores da Natureza é a nova onda. J Brincadeira, tenho me dedicado plenamente a esse projeto, afinal, é um sonho que quero realizar, é um projeto de vida.


Quais seus planos para o futuro com seus personagens?
Formar uma Geração Crutsana. E como projeto a longo prazo, tenho o plano de concretizar um Parque Temático da Crutsana, ecologicamente correto e sempre buscando essa formação.


Que acha dos fanzines como publicação alternativa?
Comecei apresentando meu trabalho fazendo o Zine Quadrimix, notando uma receptividade positiva e abrangente, resolvi partir para uma revista independente, aproveitando sempre o padrão e os moldes do zine. Então pode-se dizer que o Fanzine é um caminho para tornar seu trabalho algo conhecido.


Se você tiver um sonho e realmente acredita nele, largue tudo e faça acontecer!


Como anda a qualidade dos quadrinhos brasileiros?
Se formos falar dos Zines, tem alguns que quero destacar: Manicomics, Irmãos Gabriel e Ba. Em Recife conheci artistas ótimos.


Suas considerações finais:
Como profissional quero deixar uma mensagem para meus colegas e futuros colegas que ainda estão adentrando nesse mercado de apaixonados. Durante 30 anos trabalhei como desenhista e sempre tive meu sonho em paralelo de tornar minha criação (Crutsana) algo real e capaz de andar sozinha um dia. Quando tomei a decisão de que realmente devia me dedicar integralmente a esse projeto, ele deu certo, e continuará dando, pois acredito que a mensagem dele seja forte o suficiente para agradar e cativar o maior numero possível de fãs. Então encerro, citando que, se você tiver um sonho e realmente acredita nele, largue tudo e faça acontecer.


Nossos sinceros agradecimentos ao artista Dom Cabral por nos conceder esta excelente entrevista.

2/09/2009

HQs migram do papel para a Internet

O site hqnado.com traz histórias em quadrinhos, recheados de super-heróis e mangás, 100% nacionais.

Por: Fabio Ramos*

Um novo espaço para a veiculação das histórias em quadrinhos (HQs), a internet, foi o tema da dissertação de mestrado do pesquisador Edgar Silveira Franco, do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), defendida no último dia 27. Para o pesquisador, o uso da internet apresenta muitas vantagens para as HQs - mas ele reconhece que no sistema digital, o produto passa a ser outro: não se trata mais da história em quadrinhos, mas sim do que ele denomina de HQtrônica.

A pesquisa de Franco é uma das primeiras da área, inovadora no mundo todo. Segundo ele, que visitou mais de 300 sites de HQs de todos os estilos de vários países, as HQs digitais brasileiras estão no mesmo nível daquelas produzidas na Europa, tanto em termos de conteúdo como no aspecto tecnológico. Já as produzidas nos Estados Unidos são apontadas por ele como mais ricas em efeitos especiais, mas trazem menos conteúdo.

O novo mestre é quadrinhista desde os 15 anos e arquiteto. Ao descobrir o trabalho de HQs na internet, resolveu se dedicar a esse novo universo, que ele próprio considera um misto de cinema, história em quadrinhos, arte, literatura e RPG.

Franco aponta, como principais vantagens da transposição da HQ do papel para a rede internet, a redução dos custos de impressão e distribuição do produto; a possibilidade de utilizar cores à vontade - também sem a preocupação de reduzir custos ligados à impressão, o que é e sempre foi uma questão importante para quem produz histórias em quadrinhos - e a possibilidade de se introduzir o elemento som à história, principalmente em substituição às onomatopéias (figura de linguagem que representa sons - como os Pow! ou Smack!, bastante utilizados nas HQs).

Prêmio Menção Honrosa

A forma de lidar com o tempo é outro aspecto importante. Franco compara as HQs tradicionais, o cinema e as HQtrônicas. Nas tradicionais, o desenho e a escrita estão prontos e o tempo de leitura é determinado pelo leitor. No cinema, a linearidade do tempo é determinada pelo diretor/autor. Na HQtrônica, o autor pode determinar a linearidade do tempo de acordo com o seu interesse. Neste caso, o internalua pode escolher se preferem ir para a frente ou voltar para páginas anteriores

Este trabalho, NeoMaso Prometeu, baseia-se no mito grego de Prometeu, que, como castigo por ter roubado o fogo dos deuses para entregá-lo aos homens, recebeu a pena de ter seu fígado devorado todos os dias por uma água. À noite, seu fígado se recompunha, e assim seu sofrimento não tinha fim. Na versão de Franco, Prometeu sente prazer em seu suplício. Por esta HQ, o pesquisador recebeu o prêmio Menção Honrosa na 13º Videobrasil - Festival Internacional de Arte Eletrônica, realizado de 19 a 23 de setembro deste ano.

Do papel ao computador

No início, segundo Franco, os tecnófobos e pessimistas fixaram-se apenas nas falhas para declarar o computador inútil para a criação de quadrinhos. Atualmente, os computadores tornaram-se ferramentas essenciais nos estúdios dos quadrinhistas e artistas os utilizam para a criação de efeitos especiais, designers de tipologias os usam para criar seus próprios alfabetos e grandes editoras possuem departamentos voltados exclusivamente para a colorização em computador. Franco lembra ainda que, mais recentemente, artistas gráficos passaram a desenvolver seus trabalhos online, em contato direto com outros artistas.

Com a popularização dos CD-Roms e da internet, os signos visuais das HQs passaram a ser adaptados para essas novas mídias. No início, porém, as tiras adaptadas para o computador eram estáticas, sem utilizar recursos como som, movimento e terceira dimensão. Os quadros eram apresentados um a um, em interatividade com o usuário, que podia imprimir o ritmo à sua leitura. Esta característica por si só já descaracterizava o quadrinho, uma vez que, visitando um quadro por vez, a percepção de mais de um quadrinho em um só golpe de vista, uma importante característica das HQs, era perdida.

Segundo Franco, "as inovações de linguagem ainda são tímidas, mas já são um indício do que teremos em breve, pois as mudanças provocadas pela interatividade, ou seja, as possibilidades de ação do leitor/internauta, abalam a divisão tradicional entre aquele que faz e aquele que consome histórias em quadrinhos".

* Fabio Ramos é colecionador de gibis, jornalista free lancer e colunista de diversos sites na Internet.