11/05/2009

ENTREVISTA: Henrique Magalhães

Henrique Paiva de Magalhães é um daqueles caras bem persistentes. Este paraibano, nascido em João Pessoa, criou vários personagens de HQ e se tornou um dos batalhadores mais incansáveis em prol dessa arte. Por anos teve suas tiras publicadas em vários jornais brasileiros e até em Portugal. Atualmente se dedica a sua editora Marca de Fantasia, onde publica vários livros, muitos dos quais voltados aos quadrinhos. Nessa excelente entrevista, ele fala da sua iniciação no mundo dos quadrinhos, seus personagens, suas idéias, sua editora e sobre os fanzines como publicação alternativa. Confiram o bate papo.

Por Alex Sampaio*

1. Quem é Henrique Magalhães?Eu diria que sou um sonhador, mas que, por precaução, mantenho os pés firmes no chão. Aliás, não precisa se alienar para viver de sonhos. Transformei minha arte, meu sonho, em algo prático. Na impossibilidade de viver de quadrinhos, virei professor e amplio o sonho de produzir publicações independentes – fanzines, revistas – com meus alunos.
2. Como surgiu seu interesse pelos quadrinhos?Como acontece com toda criança, na descoberta das primeiras leituras, no encantamento de uma linguagem não só escrita, mas, sobretudo visual. Ao menos em meu tempo de garoto, quando a televisão apenas começava a ganhar importância, nossas viagens se davam por intermédio dos quadrinhos, seja com as aventuras fantásticas de Tio Patinhas, com o maravilhoso universo infantil de Luluzinha e Mônica ou até com os dramas existenciais do Homem Aranha.

3. Qual sua formação como desenhista?Procuro sempre afirmar que não me considero um bom desenhista, apenas desenvolvi um modo particular de me expressar. Minha formação deu-se pela observação, pela cópia e recriação. Desde cedo eu praticava o desenho ampliando as personagens que mais gostava. Isto me deu uma certa noção de proporção e expressividade. Daí a criar minhas próprias personagens foi um passo natural, uma necessidade de comunicação e expressão.

4. Como surgiu sua personagem Maria?Eu começava a sentir vontade de não mais copiar figuras isoladas, mas criar histórias que me vinham à mente. Ainda adolescente, tinha uma grande vontade de me mostrar ao mundo, de dizer o que sentia, de enfim me afirmar como indivíduo pensante. Maria surgiu em 1975, quando eu tinha 17 anos, quase 18. Para criá-la fiz uma breve pesquisa sobre as personagens nas revistas que mais curtia. Estava descobrindo as tiras, publicadas no Caderno B do Jornal do Brasil, nas revistas Grilo, O Bicho, Patota e Eureka. As tiras, com seu formato breve, sucinto, de conteúdo questionador e instigante, me seduziam. Para não criar algo semelhante ao que já existia, observei que praticamente não havia personagens femininas nas tiras, com exceção de Mãi...ê!, de Mell Lazarus. Trabalhar então com o universo feminino foi o que me pareceu mais sedutor, pelo ineditismo e porque eu me identificava muito com ele. Depois vim descobrir que existia Marly, de Milson Henriques, mas esta personagem não tinha a mesma abordagem de Maria.

5. Maria foi publicada por anos em jornais, tendo um sucesso inquestionável. O que não deu certo para seguir um caminho definitivo no meio editorial?É notório o descaso das grandes editoras com os quadrinhos brasileiros. Não há investimento na área e o máximo que elas fazem é reproduzir porcamente (com traduções mal-feitas e cortes grosseiros) as personagens consagradas e de lucro certo. Neste contexto, Maria não teria mesmo a menor chance de circular em nível nacional. Quando Maria se firmou como personagem já não havia mais as revistas de tiras, onde talvez ela pudesse ser publicada, como ocorreu com Marly, de Milson, que saiu na Patota. A saída foi publicá-la nos jornais diários da Paraíba, que me serviram para desenvolver a personagem, refinar o traço e o humor. Em paralelo, eu mesmo editava as coletâneas de tiras numa série de revistas que teve 10 edições e um um livro, A maior das subversões. Posteriormente lancei o álbum Olhai os lírios do campo, mais o livro Espirituosa, há 30 anos e duas edições da revista Maria Magazine. Apesar desse investimento independente, ressinto-me de Maria não ter tido uma grande edição nacional, que a levasse a um público mais diverso que o dos fanzines.

6. Fale sobre suas outras publicações, como Top! Top!, Mandala e Quiosque.Estas publicações são fruto de um amadurecimento editorial em conseqüência de minhas produções independentes de revistas, livros, álbuns e fanzines. Elas vieram com a elaboração do projeto da editora Marca de Fantasia, que falaremos mais à frente.Top! Top! foi minha volta aos fanzines, depois de uma temporada na França. Nele eu segui o mesmo esquema de minhas publicações anteriores, os fanzines Marca de Fantasia, editado em João Pessoa e São Paulo, em parceria com Sandra Albuquerque, e Nhô-Quim, cujo primeiro número foi feito junto com José Carlos Ribeiro, de Carlos Barbosa, RS, editor do fanzine PolítiQua. Top! Top! responde a minha necessidade de trabalhar o texto jornalístico, investigando vários aspectos das histórias em quadrinhos com pesquisa, artigos, entrevistas e resenhas.Mandala, que inicialmente chamou-se Tyli-Tyli, surgiu para preencher uma lacuna editorial. Observei que havia uma grande produção de quadrinhos poéticos, também chamados filosóficos, circulando em fanzines dispersos. Minha intenção foi reunir esses quadrinhos em uma revista própria, dando-lhes coesão e visibilidade. O núcleo que formou essa revista foi composto por Flávio Calazans, Edgar Franco e Gazy Andraus, a quem vieram se juntar muitos novos autores que encontraram na Mandala seu espaço privilegiado para expressão.A Quiosque é uma revista de análise das mídias, voltada para o meio jornalístico e de comunicação. Serve para dar vazão aos artigos produzidos por professores e estudantes do Curso de Jornalismo, mas que se encontra aberto a todos.Esse título também serviu para denominar uma coleção de livros de bolso. A coleção Quiosque, que já se encontra na 12ª edição, aborda os mais variados aspectos dos quadrinhos e expressões da cultura pop. Nessa coleção constam vários títulos voltados ao estudo dos fanzines bem como sobre quadrinhos e arquitetura, ao estudo de personagens e séries, como Miracleman e Arquivo X e a investigação sobre o que é História em Quadrinhos Brasileira.A importância da coleção Quiosque, que tem despertado grande interesse do meio acadêmico, dá-se pela carência de uma bibliografia específica sobre quadrinhos no país. As editoras comerciais também negligenciam essa área, o que nos parece uma grande falta de visão editorial.

7. Como surgiu a Marca de Fantasia?Depois de experimentar tantas publicações de forma amadora e esporádica, achei que era o momento de pensar em algo mais consistente, que pudesse responder à enorme demanda dos autores e do público. O fenômeno da criação de editoras independentes já vinha se desenvolvendo em outros países, como nos Estados Unidos da América e na Europa, em particular na França. Isto foi uma conseqüência natural do desenvolvimento dos fanzines.Haveria um momento onde se teria que avançar em direção à criação de um mercado paralelo de publicações, intermediário entre o amadorismo dos fanzines e o meio exclusivamente comercial. As editoras independentes não visam o lucro como prioridade, embora não possam abrir mão dele, para seguir com as produções mais requintadas. Mas mantêm o espírito livre e experimental dos fanzines, voltando-se à descoberta de novos valores e à investigação sobre o universo dos quadrinhos. Foram esses princípios que me levaram a criar a editora Marca de Fantasia, em 1995.

8. Sua editora é basicamente virtual. O caminho para a segmentação é a Internet?A Marca de Fantasia, apesar do sucesso inicial, chegou a um impasse crucial. Não dava mais para seguir o ritmo imposto pelas condicionantes que dispúnhamos naquele momento para a distribuição das publicações. Até o final dos anos 1990, o mais comum era se trabalhar com o mesmo processo de distribuição dos fanzines, ou seja, pela via postal. Apesar de procurarmos hoje produzir edições mais elaboradas, continuamos amadores, as tiragens continuam pequenas, o que inviabiliza uma distribuição pelas vias convencionais.Para divulgar um novo título era preciso todo um trabalho desgastante e cada vez mais caro. Primeiro era preciso anunciar o lançamento, enviando para revistas e jornais uma circular de imprensa. Ao mesmo tempo, eu fazia um cartão postal para enviar pelos correios para uma lista de leitores. Isso levava tempo, dificultava o contato e custava caro. Até a compra se efetivar era preciso percorrer um longo caminho, o que gerou o distanciamento e desinteresse do público.Vivíamos já uma época de uma comunicação mais ágil, imediata, favorecida pela popularização da Internet. A saída era transformar a editora numa livraria virtual, tirando proveito desse incrível meio de comunicação. A sobrevivência da Marca de Fantasia deve-se a sua inserção na Internet. Com este meio pude ultrapassar os limites de meus 100 leitores, chegar a um público muito mais amplo e que cresce a cada dia, como uma corrente sem fim.

9. Como você seleciona os trabalhos para publicação em sua editora?Privilegio algumas linhas de produção, como os quadrinhos humorísticos, os cartuns e eventualmente a aventura, quando esta tem um conteúdo crítico com elementos culturais autênticos. O trabalho experimental também tem vez. Dividi minha produção em algumas coleções, que definem suas linhas editoriais. São: coleção Corisco, com quadrinhos experimentais; coleção Das tiras, coração, de livros de tiras de quadrinhos e cartuns; coleção Quiosque, de livros teóricos sobre aspectos diversos dos quadrinhos e cultura pop. Excepcionalmente publico álbuns, outras revistas e livros sobre cultura nacional.Guio-me sempre pela qualidade do material, seja textual, seja gráfico e procuro dar visibilidade aos novos autores. Também procuro fazer o resgate de obras seminais, como o trabalho do cartunista paraibano Luzardo Alves e de expressões internacionais desconhecidas ou pouco conhecidas no país, como o argentino Sergio Más, a francesa Claire Bretécher, o cubano Garrincha e o português Nuno Reis.

10. Quais os planos para o futuro da Marca de Fantasia?Recebo muitos originais para publicação e sinto não poder publicá-los imediatamente. Não tenho estrutura para isso, tanto financeira quanto operacional. Faço todo o trabalho sozinho, da seleção do material à diagramação, da impressão à intercalagem, da costura ao corte, da divulgação à venda. É um trabalho, mesmo que prazeroso, muito desgastante. Preciso tomar fôlego, estabelecer um ritmo mais racional. Vinha publicando dois livros por mês, o que é muito para dar conta de toda a cadeia de produção. Tenho tentado fazer apenas um livro por mês, mas sinto uma pressão muito forte para acelerar o ritmo. Os originais clamam sua edição e os autores ficam ansiosos para ver seus trabalhos editados, o que é bem compreensível.Na coleção Quiosque temos textos de Gian Danton e Bráulio Tavares como os próximos lançamentos. Mas há muitos outros aguardando a vez. Nos quadrinhos, os próximos livros serão A turma do Xaxado, pela coleção de tiras e a reedição de Lugares In-comuns, com tiras de Jaguar, lançada originalmente na década de 1970 pela editora Codecri, do jornal O Pasquim. Estou planejando algumas parcerias para novas coleções, que podem ser anunciadas no momento oportuno.

11. Quais seus personagens preferidos no mundo dos quadrinhos?Sem dúvida, Fradim, de Henfil, Pererê e Menino Maluquinho de Ziraldo, Mafalda, de Quino, Aline, de Adão Iturrusgarai, Luluzinha, de Marge e Agripine, de Claire Bretécher.

12. Você coleciona gibis?Transformei minha coleção na Gibiteca Henfil, que dirijo em João Pessoa. Não dava mais pra guardar as revistas em casa e resolvi socializá-las. Com a abertura da Gibiteca Henfil a coleção se multiplicou rapidamente por conta das doações dos leitores. Hoje não me dedico tanto a fazer coleções, mas procuro ter algumas edições do que é mais representativo.

13. Que acha dos fanzines como publicação alternativa?Os fanzines são fundamentais para o exercício gráfico e para a troca informações. Eles certamente não acabarão jamais, mesmo enfrentando a sedução dos meios eletrônicos. Vejo cada vez mais jovens se interessando em ter sua própria publicação. Enquanto houver necessidade de expressão e liberdade de pensamento, haverá fanzine.

14. Tem acompanhado os artistas brasileiros que fazem HQ? Poderia citar algum que você admira?Edgard Guimarães é um autor muito criativo e provocador. Suas HQ publicadas em seu fanzine QI já geraram muita polêmica e envolvimento do público. Edgar Franco, Gazy Andraus e Flávio Calazans trazem um sopro de renovação e experimentação aos quadrinhos, que merecia ter uma ampla difusão. Wellington Srbek e André Diniz, além de ótimos editores, fazem um trabalho textual magnífico. Junto com Marcelo Marat, Antônio Éder e Gian Danton eles tem mostrado a capacidade de nossos roteiristas.Há que se louvar o trabalho de Cedraz, o de Lin, de Klévisson, de J. Marreiro, enfim, tem muita gente boa produzindo, que é injusto e antipático ficar citando alguns.

15. Existe futuro para os quadrinhos brasileiros aqui no nosso país, ou teremos sempre que bater nas portas americanas?Há futuro, sim, desde que tomemos as rédeas da produção. É hora de pensarmos na profissionalização. Alguém tem que substituir essa geração conservadora que domina o meio editorial nacional. Não é o caso de tomarmos seus lugares, mas de criarmos os nossos. A editora Circo provou que isso é possível. Basta organização, uma certa visão empresarial, criatividade e perseverança.

16. Muitos acham que a HQ Brasil não funciona por falta de bons roteiristas. Qual sua opinião sobre isso?O melhor dos quadrinhos que está sendo lançado no Brasil está no meio independente. São bons roteiristas e desenhistas que não encontram espaço nas editoras. Sem xenofobia, é preciso olhar e valorizar o que temos em casa.

17. Muitos artistas estão buscando a Internet para divulgar seus trabalhos. Esse é sem dúvida o caminho alternativo para se publicar HQ?A Internet, para mim, serve mais como veículo que como meio. Embora seja um ótimo veículo para a difusão de tudo, inclusive de quadrinhos, o meio impresso continua sendo fundamental. Não creio que o meio virtual substituirá o livro impresso, o jornal, a revista e os álbuns de quadrinhos.

18. Henrique Magalhães já procurou alguma editora para mostrar seus trabalhos?Certa vez procurei a Grafipar, quando ela já havia esgotado sua capacidade produtiva. Não houve interesse por Maria. O tipo de quadrinhos que eu faço não tem veículos adequados para a sua difusão, que seriam as revistas de humor e de tiras. Para a edição de álbum já tive duas propostas que não foram adiante, mais por causa de minha sobrecarga de trabalho que por desinteresse dos editores. Eu não queria apenas fazer uma compilação de tiras. Como não tive tempo para produzir algo novo, o projeto parou.

19. O editor brasileiro é mesmo imediatista nos lucros?Não só imediatista quanto limitado. Sua visão não ultrapassa os modismos importados, como as infinitas sagas de super-heróis, que já são decadentes no próprio país de origem, ou ainda os quadrinhos japoneses, que se apóiam na sedução midiática dos desenhos animados. Quanta coisa boa, em nível mundial, não conhecemos por causa da mediocridade dos editores! A França e a Espanha têm um mundo de quadrinhos que certamente, se tivéssemos acesso, contribuiriam de forma fundamental para a formação de nossos autores e do público.

20. Qual sua opinião sobre uma lei de reserva de mercado para os quadrinhos? Apesar de ter participado efetivamente junto à AQC (Associação de Quadrinhistas e Caricaturistas) do Estado de São Paulo na década de 1980 pela aprovação de uma lei de reserva de mercado para os quadrinhos brasileiros, acho que esta não é a melhor solução. Não é por decreto que se vai criar mercado. Além do desinteresse dos editores, a realidade é que nossos quadrinhos são caros, e há uma justificativa para isso. Os quadrinhos estrangeiros são distribuídos massivamente, por meio dos "syndicates", o que os torna muito baratos. Os autores brasileiros normalmente vendem seu trabalho para uma única publicação, ou, no caso das tiras, para um número muito limitado de jornais. Para sobreviver, o autor nacional tem que cobrar o preço justo de sua arte, ou até bem menos, o que ainda é muito caro para concorrer com o material importado. Certa vez Henfil falou que o ideal seria taxar os quadrinhos importados para que os nossos pudessem concorrer mais ou menos em pé de igualdade com eles. Ainda assim, para mim, haveria uma brutal desigualdade, pois as personagens estrangeiras chegam aqui cercadas por uma grande estrutura mercadológica, associadas a diversas mídias, como desenhos animados para TV, filmes de cinema, bonecos e todo tipo de insersão em objetos comerciais. Além da taxação dos quadrinhos estrangeiros, penso que se deve criar estruturas de distribuição com a mesma estrutura dos "syndicates", bem como promover a criação de associações e editoras independentes.

21. Suas considerações finais:A luta é árdua e constante, mas quanto prazer nos dá esse mundo dos quadrinhos! Devo a ele boa parte do que sou, minha disposição de luta, minha visão de mundo, minha motivação. Precisa ser mais importante que isso?

* Alex Sampaio é editor do fanzine Made in Quadrinhos, colecionador de gibis e colunista desse blogger.

11/04/2009

As Diretrizes das Histórias em Quadrinhos

Por: Emir Ribeiro*

As diretrizes fixadas para a publicação das histórias em quadrinhos estão tomando o caminho errado. Edito revistas e fanzines desde 1978 e coleciono quadrinhos desde 1967. São mais de 30 anos de experiência e prática. Nesse tempo, pude perceber que o público leitor brasileiro gosta de personagem fixo e não histórias avulsas. Tome-se por base a Kripta da RGE, de longa vida; Tex, no tempo da Vecchi, da Globo e hoje na Mythos; mesmo a linha Vertigo da Abril, mais intelectualizada, apresentava personagens fixos, como Hellblaizer; os heróis da Marvel e DC que nunca pararam de circular até hoje. Agora cite-me uma revista de HQ avulsa sem personagem fixo com vida longa...

O público brasileiro adora novela. Gosta de acompanhar a vida dos personagens como se fossem amigos. O público torce por eles, se empolga com as coisas boas que acontecem. Quem não se emocionou com o casamento do Fantasma? Quem não se angustiou com a morte de Gwen Stacy no Homem Aranha da EBAL? Quem não se penalizou com Frank Drake quando sua Jean se transformou em vampira e teve de ser morta, na Tumba de Drácula da Bloch? Quem não se chocou ao saber que o Dr. Alec Holland morrera e o Monstro do Pântano era só uma planta na aula de anatomia? A persistir a atual política editorial, este filão não poderá mais ser explorado.

Não adianta escrever histórias destinadas a intelectuais. Elas devem ser compreendidas também por gente mais simples. Se o texto não arrancar do leitor algum tipo de sentimento de identificação pessoal, ele fracassa.

Não é preciso encher a revista de personagens fixos, mas sim, destinar uma porcentagem das páginas a eles. O rigor deverá ser maior na seleção dos desenhos. Existem bons textos com desenhos sofríveis. Bons desenhos sempre cativam o leitor. As primeiras histórias a serem lidas devem ser sempre as melhores, para ‘pegar’ o leitor logo no primeiro momento que folhear a revista.

*Emir é o autor da personagem Velta, editor de vários fanzines e colecionador de gibis.

10/05/2009

Desenhos animados brasileiros ganham espaço

Meu Amigãozão, uma produção nacional com estréia prevista para fevereiro de 2010 é o novo desenho animado produzido pela produtora carioca 2DLab. A série já foi negociada com o Discovery Kids América Latina e com a TV Brasil. O desenho foi financiado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que também deverá dar aporte a mais duas produções do gênero, para serem exibidos em canais pagos e na TV aberta. Uma das exigências do banco estatal brasileiro, é que as produções brasileiras sejam aliadas a produtoras internacionais para garantir que as séries sejam exibidas também no exterior.

O caminho de desenhos animados brasileiros até a programação infantil no Brasil nunca foi simples, já que as televisões nacionais preferem comprar os direitos de exibição de animações que já foram veiculadas em outros países. Isso as torna mais baratas e com a vantagem de já terem sido testadas em algum lugar.

A dificuldade de encontrar um mercado, no entanto, tem deixado os produtores brasileiros de fora de um setor que tem crescido bastante. Uma estimativa citada pelo BNDES feita pela revista KidScreen, focada no mercado de entretenimento infantil, indica que o mercado de desenhos animados no mundo cresceu de US$ 8 bilhões em 1995 para US$ 80 bilhões atuais.

Um exemplo de sucesso, foi a estréia da série Peixonautas, produzida pela TV Pinguim, com sede em São Paulo. O desenho brasileiro estreou no canal Discovery Kids e repercutiu bem. Foi a primeira produção animada brasileira a ocupar um espaço no canal, que inclusive foi um dos co-produtores da série.

10/02/2009

O caminho da simplicidade

Por: Fernando Lopes*

Quando comecei a ler quadrinhos de super-heróis, há quase vinte anos, fui imediatamente cativado por um fato interessante: os personagens tinham vida própria! Até então, nunca tinha me ocorrido que aquelas roupas espalhafatosas deixassem o mínimo de espaço para uma história.

Minha concepção de super-heróis, na época, restringia-se ao que eu conhecia do desenho dos Superamigos: um bando de caras com a cueca por fora das calças reunidos o dia inteiro na Sala da Justiça rezando para que o bendito alerta de perigo tocasse e eles tivessem uma boa desculpa para deixar de aturar aqueles malas dos Super-Gêmeos.

Imaginem minha surpresa ao ver que aqueles fugitivos de baile carnavalesco tinham um passado, uma motivação, aspirações... Eram, enfim, personagens ligeiramente menos bidimensionais do que eu supunha. É bem verdade que, via de regra, as histórias tinham a profundidade de um pires e os personagens restringiam-se a um amontoado de estereótipos feitos sob medida para agradar recalques adolescentes. Mas, que diabos! Eu era adolescente! Nada mais justo, portanto, que eu me identificasse com os problemas daqueles camaradas e passasse a acompanhar suas aventuras e desventuras mensais.

Mais do que os poderes mirabolantes ou as atuações heróicas, os quadrinhos prenderam-me por um conceito que eu até então desconhecia: a continuidade. Diferentes dos heróis da literatura, cujas aventuras ficam restritas a um dado período de tempo, deixando o leitor órfão no final do livro, carente de novas emoções, os personagens de quadrinhos estavam sempre sujeitos a mudanças, mais ou menos como na vida real. Era como acompanhar uma novela que se desenrolava mensalmente nas páginas de cada gibi. Posso estar enganado, mas sinto que a maioria dos fãs do gênero compartilham desse sentimento, em maior ou menor escala.

Por mais fascinante que seja o conceito, porém, a continuidade é uma verdadeira armadilha. Quando ela se torna confusa a ponto de desnortear até mesmo o mais fiel dos leitores, deixa de ser um atrativo para tornar-se um monstro capaz de afugentar o fanboy mais babão. Falo com conhecimento de causa: aconteceu comigo e arrasou minha relação com os personagens da Marvel.

E é curioso notar como tanto Marvel quanto DC acabaram prisioneiras de suas confusas cronologias. Tentam, em vão, contentar os fãs mais antigos e ainda atrair fãs mais novos, falhando fragorosamente nos dois casos. Os primeiros normalmente são os chatos que dedicam a vida a reclamar dos buracos na continuidade. Já os novatos pegam o bonde andando, não entendem patavina do que está acontecendo e fogem assustados na primeira oportunidade.

Gerenciar o tempo é confuso, seja na vida real ou nos quadrinhos. Os editores deveriam ter isso em mente e trabalhar a cronologia de modo mais racional. Plots intermináveis, espalhados por dúzias de revistas, com milhares de pontas soltas e recordatórios a cada dois quadrinhos só servem para aporrinhar o leitor. Talvez seja a hora das editoras buscarem o caminho da simplicidade: arcos curtos, histórias fechadas, planejamento coerente, evolução gradativa. Pode até não ser a solução, mas certamente tornará a vida dos leitores bem menos complicada.


*Fernando Lopes é jornalista e amante dos quadrinhos

10/01/2009

ENTREVISTA: Pablo Mayer e Diogo César

A dupla Pablo Mayer e Diogo César, autores de A Casa Ao Lado são os mais representativos exemplos dos quadrinhos catarinenses. Eles acabam de lançar o primeiro álbum por uma editora, a HQM, o que mostra que o interesse por novos desenhistas e roteiristas de quadrinhos está crescendo além da Internet. A Casa Ao Lado, foi publicado com apoio do governo de Joinville e conta a história de Jorge, um homem separado e desempregado que, repentinamente, se vê numa trama de mistério após seu filho desaparecer em uma casa mal-assombrada ao lado da sua. Confiram a entrevista abaixo:

Por: Paulo Floro

1- Vocês tiveram apoio público para terminar o álbum. Acreditam que quadrinhos no Brasil precisam mais desse incentivo ou as editoras também precisam acordar para publicar mais autores nacionais?
Pablo: Todo incentivo é importante. O quadrinhista precisa se esforçar para mostrar o seu trabalho e procurar meios para fazê-lo. As editoras estão acordando, basta ver a quantidade de material nacional que elas andam publicando. Falamos muito na injustiça do mercado, que valoriza demais os autores estrangeiros, mas esquecemos que as editoras são empresas e precisam de lucros. Cabe a nós, quadrinhistas brasileiros, melhorar a qualidade no nosso material.
Diogo: A cultura em geral precisa de todo o apoio que puder conseguir. a iniciativa do governo de Joinville é louvável e tem ajudado em muito o desenvolvimento de todo o tipo de arte na cidade, com isso, tem se melhorado muito a qualidade do que é produzido também.


2- Seu desenho lembra um pouco o estilo do Mike Mignola. Talvez seja até uma percepção muito particular minha e eu esteja equivocado. Mas, quais foram os suas principais influências desde quando começou a desenhar?
Pablo: A semelhança vem do contraste e do minimalismo do desenho. Acho que termina por aí. Minhas influências vem de tudo que vejo em quadrinhos e pinturas. Sento na prancheta e desenho do meu jeito. E o que sai é isso que vocês podem ver na A Casa ao Lado.

3- Qual o primeiro contato que vocês tiveram com os quadrinhos?
Pablo: Meu pai é cartunista. Sempre tive milhares de quadrinhos em casa. Lia muito Fradim (Henfil), Rango (Edgar Vasques), Mineirinho (Ziraldo), Laerte e assim vai… Depois peguei gosto por quadrinhos de heróis. Uma breve fase. Hoje não gosto.
Diogo: Aprendi a ler com quadrinhos. Histórias dos gibis da Disney em geral. Em seguida comecei a acompanhar o Homem-Aranha e a coisa fluiu daí. Estava sempre desenhando também, criando meus heróis, fazendo continuação de histórias de seriados de TV.

4- Li sobre o fanzine Muco de vocês. Senti uma retomada de bons fanzines. Ainda planejam continuar editando?
Diogo: Muco foi nossa primeira tentativa, junto com nosso comparsa Paulo Gerloff. Teve três edições, todas com seu “evento de lançamento”, que era sempre o único lugar onde se podia adquiri-lo, pois cada edição teve no máximo 30 exemplares. Havia em cada edição uma mensagem incentivando o leitor a fazer cópias e distribuir por aí também, mas nunca tive notícia de ninguém que o tenha feito.
Pablo: O Muco é nossa “menina dos olhos”. Sempre prezamos a qualidade gráfica. A linha é humor, que gostamos muito de fazer. O plano é continuar editando sim, mas antes, faremos um encadernado com as duas melhores histórias de cada um e uma nova.

5- Como surgiu a idéia do álbum?
Pablo: Cheguei para o Diogo e disse: “Vamos fazer um álbum em quadrinhos. Pensei em fazer sobre uma casa abandonada e um cara. Pode fazer esse roteiro?” E assim foi…
Diogo: É como o Pablo disse. Surgiu o convite da parte dele para que eu escrevesse, mas tinha que ser sobre uma casa misteriosa e um homem. Nunca havia escrito nenhuma história de mistério, mas fazia sentido que começássemos sabendo qual era o final dela, antes de contar o começo. Uma vez com a solução do mistério em mãos, foi questão de preencher as lacunas, criar e desenvolver os personagens, situações… Pra mim, foi realmente um processo de aprender fazendo.

6- Você, Pablo, publica tiras no jornal A Notícia e faz diversas ilustrações para outras publicações. Consegue já viver do trabalho de quadrinhista?
Pablo: Sim. Vivo disso desde os 18 anos. Comecei cedo trabalhando em jornal. Mas, para sobreviver, tenho de fazer Ilustração, tirinha e as vezes até charge.
Diogo: Eu sou ilustrador, tenho meu próprio estúdio e procuro pagar as contas em dia atendendo agências de publicidade e editoras. Se fosse viver de escrever e fazer quadrinhos, provavelmente não daria.

7- Vocês acompanham os novos autores da sua cidade? Acreditam que exista alguma dificuldade de interação entre os diversos artistas independentes do país?
Pablo: Os artistas independentes nunca estiveram tão unidos. A internet está aí pra isso.
Diogo: Falar em dificuldade de interação hoje em dia, é sacanagem. Existe tudo quanto é recurso para que você mantenha contato com outros artistas, acompanhe o trabalho e troque idéias, e tem muito artista por aí interessadíssimo nesse tipo de contato. Estamos sempre abertos a conhecer novos artistas, experientes ou iniciantes, e em nossas viagens de lançamento do álbum, fomos recebidos com grande interesse por muitos artistas locais. Foi fascinante.

8- Existe alguma HQ brasileira que dialogue com a obra de vocês, alguma que os influenciou?
Pablo: Acho que não. Na realidade, fizemos nossa história sem pensar em outras. Queríamos contá-la do nosso jeito.
Diogo: Realmente quisemos contar uma história do nosso jeito. As referências fluem naturalmente como uma coisa inconsciente mesmo. Tentamos fazer tudo de uma maneira muito honesta e verdadeira.

9- E como surgiu o contato com a editora HQM?
Diogo: No início do ano, na iminência de ter 2000 exemplares do álbum encalhados em casa por falta de distribuição, surgiu a idéia meio que tardia de ir atrás de uma editora. Tentamos algumas, até que nosso amigo e mestre, o José Aguiar, nos indicou a HQM, com quem havia acabado de lançar seu álbum, o Quadrinhofilia.
Pablo: Entramos em contato com o Carlos, nosso editor, mandamos o PDF e perguntamos se interessava. Pra nossa sorte, a resposta foi positiva e nosso álbum saiu da melhor maneira possível graças a isso.

10- Quais as expectativas com o lançamento do álbum?
Pablo: A expectativa é de que as pessoas gostem e quem sabe, trazer o leitor que não costuma ler quadrinhos para o nosso lado. Acho que é isso.
Diogo: Acredito que demos um passo muito importante. Agora é esperar que venham as impressões de cada leitor sobre nossa história. Depois que fizemos os lançamentos, começaram a surgir os comentários de quem leu, e até agora estão todos muito contentes com nosso trabalho. Isso é muito legal, principalmente para iniciantes como nós.

9/08/2009

Coleções de Quadrinhos em DVD

Depois do sucesso das coleções de quadrinhos em formato de DVD do Hulk e Homem de Ferro lançados em outubro de 2008, a Marvel vai começar a colocar no mercado novas coleções de quadrinhos em formato de DVD ainda este ano. Serão lançados nos EUA os primeiros volumes da coleção Marvel DVD Digital Comic Book Archives, reunindo HQs clássicas da editora em DVD-ROM. A forma de leitura também inova: não é feita somente página por página e é possível dar zoom em cada quadro para ver mais detalhes, inclusive ler toda a edição de quadro em quadro. Cada DVD custará US$ 29,99. As compras poderão ser feitas também no site da amazon.com.

9/07/2009

HQ de Robin Hood com artistas brasileiros

O álbum de luxo Outlaw: the Legend of Robin Hood, sobre o lendário arqueiro Robin Hood, está fazendo um enorme sucesso mesmo depois do seu lançamento em junho deste ano na Inglaterra, Austrália e Estados Unidos. Com roteiro de Tony Lee, a obra tem capa dura, 144 páginas e é uma publicação da Walker Books. Além disso, a HQ conta com artistas brasileiros, o desenhista Sam Hart e o colorista Artur Fujita.

9/03/2009

ENTREVISTA: Emir Ribeiro

O criador de Velta, Emir Ribeiro, fala da sua iniciação no mundo dos quadrinhos, das suas influências, dos seu interesse por super heróis, dos seus contatos com editoras, da difícil arte de penetrar no mercado americano, dos fanzines como válvula de escape para divulgação da HQ nacional, das suas publicações e dos seus projetos, nessa excelente entrevista ao nosso blog:

Por: Alex Sampaio


1- Creio que não se faz necessária uma apresentação do artista Emir Ribeiro. Porém, gostaria de saber sobre sua formação em termos de quadrinhos:
Nunca fiz cursos nem participei de seminários. Prêmio só ganhei um: "Nova". Já comprei alguns livros sobre HQ, apenas para melhorar a arte. Meu aprendizado sempre foi através de observação. Quando batia o olho em um determinado desenhista, tentava ver seus pontos fortes para incorporar ao meu estilo. Até hoje faço isso, afinal o aprendizado continua.


2- Como você definiria suas influências?
No bojo do método do aprendizado, as influências não foram totais, e sim parciais. É como eu disse, o método consiste em extrair o melhor de cada artista. Contudo, sempre cito o genial Jack Kirby como a minha influência em HQ. Infelizmente ele já faleceu. Foi vendo os desenhos dele, que surgiu a inspiração para minha tara por quadrinhos.


MINHA PRIMEIRA INFLUÊNCIA NAS HQs FOI DO GENIAL JACK KIRBY!


3- E essa obsessão por quadrinhos, como surgiu?
Surgiu principalmente por interesse em super heróis. Meu pai só comprou televisão em 1968, e foi dessa época as primeiras exibições no Brasil dos desenhos animados da Marvel. Dos cinco heróis apresentados, simpatizei de cara com o Hulk. Também acompanhei o seriado apalhaçado do Batman, apresentado nas quartas e quintas-feiras. Em pouco tempo apareceram as revistas da Marvel, onde comprei todas. Daí para começar a desenhar foi rápido.


4- Que lia nessa época em termos de HQ?
Lia todas as revistas Marvel da EBAL, tipo Superxis, Capitão Z, Álbum Gigante e, posteriormente suas sucessoras: Solar, Homem Átomo, Batman, Super Homem, Invictos, dentre outras.


5- E o que tem lido atualmente em termos de quadrinhos?
Pouquíssima coisa. Parei com os estrangeiros há alguns anos, por total perda de interesse. Nem filmes e outros tipos de produções eu consumo mais. Como o material nacional é raro de sair, então, o espaçamento entre as leituras são grandes. O último álbum que li foi o Musashi II do mestre Shima. Estou à procura do "Desenhando a Arte Fantástica" do Mozart, mas ainda não encontrei com facilidade por essas bandas. O mesmo com relação à Bruuna X do Colonesse.


6- Como surgiu a inspiração para a criação de Velta?
Velta apareceu em 1973. Inicialmente não como personagem de quadrinhos, mas apenas como figura bonita numa pintura à óleo. A inspiração principal foi a "pravda", dos belgas Peelaert e Thomas. Evidente que foi o fato dela ser motoqueira o motivo da pintura. Porém, eu não conhecia nada de Pravda e só a vira uma única vez numa revista. Velta só passou a ser personagem de quadrinhos três meses depois da confecção do quadro, quando fui incumbido da editoracão de um jornal do colégio. Destinei páginas para quadrinhos e lancei Velta em desenhos toscos feitos com lápis crayon e esferográfica preta.Com o passar do tempo fui criando as particularidades da vida ddela com base em coisas vistas por aí, ou mesmo por gostos pessoais.


7- E o gênero super herói, por que o estilo mais popular americano o influenciou?
Era a única coisa disponível na época. Era só o que se via na TV e revistas. Eu era um garotão de 14 anos e repeti o que estava vendo. Em 1975 veio a chance de publicar em um jornal de grande tiragem que circulava por todo o estado. Peguei Velta e aproveitei a chance. A medida que ocupava mais espaço, ia lançando mais personagens, como Itabira que de nada tem de super herói, a Nova e o Homem de Preto. QQuando menos esperei, os anos se passaram e os personagens se tornaram muito conhecidos do público leitor, a ponto de garotos até começarem a fazer histórias com eles. Minhas idéias foram mudando, mas não dava para voltar atrás. A solução foi dar mais brasilidade às criações, mudando nomes, cenários e situações. Os heróisapesar da mitologia importada, agora estavam montados em bases bem nacionais.


8- De onde vêm as inspirações para a criação dos seus roteiros?
De fatos diários, de outras HQs, de uma conversa com amigos, de uma frase, de uma novela de um filme, de algo visto na rua, enfim, vem de todos os lados. Mesmo assim, procuro sempre fazer roteiros os mais realistas e interessantes possíveis, apesar da parte fantástica.


9- Você produziu muitas coisas alternativas. Fale um pouco sobre elas:
ZAT foi lançado em agosto de 1994, tendo como proposta, o resgate de todo material de minha autoria, publicado ou não, produzido ao longo desses anos todos. Quando eu decidi publicá-lo, tinha em mente a preocupação de não deixar esquecidos os fatos ocorridos ao longo do processo criativo e de publicação das minhas criações. É preciso que os leitores saibam o quanto se sofre sendo quadrinista no Brasil. Como o fanzine era bem variado, não ficava só nisso. Republiquei muita coisa saída só na Paraíba, que não tinha sido lida em outros estados. Saiu também material que não foi publicado nos states, tipo amostras com detalhes e bastidores.


10- Seria bom falar também sobre os 30 anos de Velta:
Foi um aniversário que trouxe a maturidade final à personagem. Na sequência à edição lançada pela Opera Graphica em fins de 2003, estará vindo um novo álbum que vai dar uma sacudida na vida de Velta, e apresentar mudanças e novidades que a deixarão cada vez mais caracteristicamente brasileira. Infelizmente, nesse tempo todo, mesmo com a direção contrária às velhas fórmulas estrangeiras, as pessoas estigmatizaram Velta como uma super-heroína. Há décadas procuro fugir dessa origem. Não nego para ninguém, e nem tento apagar o passado, ou fingir que ele não existiu. Pelo contrário, o assumo. Mas, de uns 20 anos para cá, meu intento é outro bem diferente.


11- Quais outros zines você também editou?
O Molhadas & Fogosas eu lancei em novembro de 1996, que circulou a pedido dos leitores do ZAT, onde republiquei somente histórias eróticas publicadas nas editoras paulistas e matérias escritas sobre os bastidores e processos de criação. Teve também o ZAT Contos, que lancei em abril de 1997, com proposta de organizar cronologicamente todas as histórias de Velta publicadas. Nos contos, baseados nas HQs saídas em jornais, revistas alternativas e fanzines, há um detalhamento minucioso sobre a vida pessoal da personagem. Funcionou como livro de bolso.


12- Os fanzines pararam de circular?
Momentaneamente sim.


É PRECISO QUE OS LEITORES SAIBAM O QUANTO SE SOFRE SENDO QUADRINISTA NO BRASIL!


13- Que acha dos fanzines como publicação alternativa?
São nossas válvulas de escape e nossa seara. É onde ainda tenho bons amigos. Com negação de oportunidades nas editoras, a solução é desovar os trabalhos engavetados nos fanzines, mesmo que tenham um público reduzido de leitores. Os fanzines são uma resposta revoltada às panelinhas e aos editores pedantes. É onde os artistas são tratados com respeito. Por isso nunca abandono os zines, mesmo quando trabalhava para os Estados Unidos.


14- Você não publica mais zines, apenas tem colaborado com alguns deles que circulam. A Internet passou a ser seu elo de ligação com os leitores?
Para mim, a internet é apenas um veículo de divulgação e contato mais rápido. Com relação à leitura e apreciação de uma história em quadrinhos ou um livro, melhor mesmo é o volume impresso, pois independe de posição desconfortável, quedas de conexão ou energia, para ser consumido.


15- Quais as maiores dificuldades para se concretizar um trabalho no mercado americano?
O quadrinho americano continua vendendo pouco e a crise ainda perdura. A maioria do pessoal trabalha sem contrato. Existem acordos telefônicos, verbais, via fax ou e-mail. A qualquer momento podem ser dispensados. Os editores são uns chatos e exigem demais do artista.


16- Quais as maiores exigências do editor americano?
Quantidade e qualidade. Ou seja, o desenhista tem de fazer as coisas rápido, dentro de prazos super apertados e a arte tem de sair da maneira exigida por eles.


OS EDITORES AMERICANOS SÃO UNS CHATOS E EXIGEM DEMAIS DO ARTISTA!


17- De que maneira?
Eles não gostam de desenhos com sombra, sem ação e sem dinâmica. Quanto mais poses agressivas e brigas, melhor. Tudo dentro de padrões "perfeitos" na visão deles. Os homens têm de ser musculosos, com cabeças pequenas e mulheres peitudas e pernas longas.


18- A gente que está sabendo disso agora, fica com a impressão que vocês trabalham ou trabalharam no inferno...
Com certeza. E tem casos piores, de gente que nada entende de quadrinhos e está na editora por ser amigo de A ou B. O resultado é um desastre. Tem imbecil que censura os desenhos, cortando coisas ou mandando redesenharem por cima do original. Já houve casos de gente religiosa, feminista e outros tipos munidos do poder celestial do editor, que tocava o pau a moldar a revista às suas concepções.


19- De que maneira o artista brasileiro pode contatar uma editora americana?
É preciso de um agenciador. Tem que ser cara a cara com o editor. Só assim poderá convencê-lo a aceitar esse ou aquele desenhista. Não adianta enviar amostras pelo correio, pois não chegarão às mãos dos editores.


20- Pelo que se percebe então, é muito difícil se chegar aos states?
Muito mesmo! É preciso estar muito preparado profissionalmente. O pessoal que lê as entrevistas dos brasileiros em fanzines e revistas ainda acha que é simples e sem muita dificuldade. A concorrência é grande e os caras exigem muita qualidade e rapidez.


21- Que aconteceu entre Emir e o estúdio Art & Comics?
A direção do estúdio tomava certas atitudes impossíveis de se concordar, e assim, quando uma parte está descontente, melhor é abandonar a parceria.


22- Muitos iniciantes lhe mandam amostras de desenhos. O que você tem a dizer para esses novatos?
De fato recebo muitas amostras. Os desenhos não estão nem perto do exigido. Seriam bloqueados logo. Infelizmente não posso ensinar técnicas a tanta gente, falta tempo.


23- Gostaria que você falasse um pouco sobre seus contatos com nossas editoras:
Muitas decepções! Isso quando se dignam a mandar uma ou duas linhas como resposta. E editora mais educada nesse ponto foi a Ebal, que jamais deixou de responder a nenhuma de minhas remessas de desenhos para avaliação. As outras sempre silenciaram. Tem sido assim sempre e até hoje também. Aprendi a duras penas que é preciso morar em São Paulo, fazer amizades e várias concessões para achar uma brecha no mercado editorial. Quando me dei conta disso, já era tarde, pois estava casado, com filhos e portanto, o negócio era arranjar emprego e deixar o sonho para as horas vagas. Nesse meio tempo, prossegui nos estudos, melhorando os desenhos e os roteiros. Engavetei muita coisa ou publiquei nos fanzines e revistas alternativas.


24- Quais as dificuldades para a consolidação do quadrinho nacional?
O uso da estratégia certa. Acontece que os editores são gananciosos e querem o lucro rápido. Quando aparece um bem intencionado, é teimoso e não ouve sugestões, levando as revistas ao cancelamento.


25- Falta uma maior visão do mercado?
Eu tenho mil idéias para viabilizar uma revista de quadrinhos nacional e inclusive já expus a muitos editores. Mas é perda de tempo. Além disso, há um outro fator: O público leitor já está acostumado com os nomes em inglês. Quando vê um brasileiro, folheia e joga para lá. O leitor já tem uma idéia pré-estabelecida de que coisa feita no Brasil não presta e nem se dá ao trabalho de ler. Porém, o obstáculo principal é o editor.


26- Quais seus heróis preferidos nos quadrinhos?
Sempre fui fã confesso da minha própria criação, a Velta. No estrangeiro, fico com Batman e Hulk.


27- Uma das suas dedicações são os cartões, abrangendo vários temas, inclusive com procura grande até nos Estados Unidos. É uma alternativa de trabalho para o artista?
De fato, na última verificada nas cotações, andam revendendo cartões desenhados por mim por 10, 40, 50 e até 100 dólares no mercado Norte-Americano, e isso é muito bom, pois valoriza mais meu trabalho. Diferentemente da revista, onde o desenho tem de passar pela aprovação de um editor que muitas vezes tem uma visão bem estreita e reprova trabalhos vendáveis antes de serem postos à disposição dos leitores, os cartões originais alcançam diretamente os consumidores, havendo assim, pouca ingerência do editor. Pude ver a reação dos que adquiriram os cartões em enquetes e páginas estrangeiras, onde sou apontado com um dos artistas preferidos pelo público, nessa linha.


28- Soube que Velta está entrando no formato de mangá. Como surgiu esta idéia?
De conversas com os amigos Daniel Horn, Marcelo Salaza, Kal Moon e Anderson Quespaner, além de meu próprio filho Emir II ser comprador assíduo de mangás. Vi que poderia ter um público novo não explorado pelo meu estilo mais realista. Daí, estamos desenvolvendo o projeto para experimentar como será seu desempenho.


* Alex Sampaio é colunista do blog, editor do fanzine Made in Quadrinhos e colecionador de gibis.

9/01/2009

Disney compra Marvel por US$ 4 bilhões

A Walt Disney Co. anunciou que fechou um acordo para comprar a Marvel Entertainment Inc. em troca de pagamento em dinheiro e ações no valor de quatro bilhões de dólares. O diretor executivo da Marvel, Ike Perlmutter, comemorou a negociação: " Segundo Ike Perlmutter, a Disney é o lar perfeito para o arquivo de personagens da Marvel, dada sua provada habilidade para ampliar a criação de conteúdos e empreendimentos.

Além de Homem-aranha, Homem de Ferro e X-Men, o elenco de mais de 5.000 personagens da Marvel inclui o Capitão América, o Quarteto Fantástico, Thor, entre outros. Disney e Marvel anunciaram que os acionistas da Marvel receberão 30 dólares por título em dinheiro e aproximadamente 0,745 de ação da Disney por cada ação da Marvel.

Com base na cotação de fechamento da ação da Disney na sexta-feira passada, o valor da negociação é de 50 dólares por cada ação da Marvel ou aproximadamente quatro bilhões de dólares. Perlmutter continuará supervisionando as propriedades da Marvel, que incluem Marvel Studios, Marvel Animation e Marvel Comics.

8/20/2009

Os Simpsons ficam black em Angola

O canal africano de televisão Bué e a agência de propaganda Executive Center decidiram inovar para comemorar o início da exibição do desenho animado 'Os Simpsons' em Angola. A família maluca de Springfield foi completamente transformada. Homer, Marge, Lisa, Bart e a bebê Maggie aderiram ao estilo black, desde a bebida favorita de Homer ao cabelo rastafári de Lisa


8/06/2009

FANTASMA: UMA BIOGRAFIA OFICIAL

Com 144 páginas, no formato 26,5 x 36 cm, com o preço médio de R$ 109,00, lançado pela editora Opera Graphica o livro FANTASMA – BIOGRAFIA OFICIAL DO PRIMEIRO HERÓI FANTASIADO DOS QUADRINHOS é de autoria de Marco Aurélio Lucchetti, escritor, graduado em Letras e Mestre e Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da USP. Lucchetti iniciou os trabalhos da obra ainda em 2005, quando o personagem estava perto de completar 70 anos de existência. Em uma pesquisa realizada, O Fantasma acabou indicado como um dos 10 personagens preferidos dos leitores de quadrinhos.

O livro apresenta dezenas de depoimentos de pessoas do mundo dos quadrinhos, crônicas sobre o herói e duas raras entrevistas esclarecedoras com dois autores brasileiros.

A Obra conta com mais de 1.000 imagens, e mostra a concepção e a evolução de um universo único, riquíssimo de temas e personagens, que inclui as gerações dos 20 Fantasmas do passado, as versões futuristas e de mídias diversas: cinema, TV, jornais, revistas, mais uma ampla iconografia, abrangendo tudo que se refere a este fabuloso herói da arte sequencial.

Humor de Bar


O mineiro Nani, é cartunista, escritor, redator de humor e roteirista. Começou sua carreira em Belo Horizonte em 1971 publicando charges em O Diário.

Em Humor de Bar, o bêbado contumaz, o cliente chato, o garçom paciente e o português psicanalista do boteco fazem parte do livro. Todos estes personagens estão à sua espera nos cartuns reunidos neste trabalho editado pela Editora Desiderata, vivendo histórias que você já presenciou ou que nunca imaginou que poderiam ser criadas. Com Nani, elas podem.O livro custa em média R$ 15,00, vem em brochura e com 120 páginas.

8/05/2009

A realidade da HQ nacional

Por: Fabio Ramos*

Que dizer da realidade dos quadrinhos nacionais? Quase nada, ou talvez só falar de fatos negativos, como bem frisados por artistas que trabalharam e nada receberam por isso. As editoras que poderiam investir e incentivar a arte nacional, nada ou pouco fazem pelo quadrinho tupiniquim. A Globo e a Abril que poderiam ser para os quadrinhos o que a Rede Globo é para a televisão, preferem continuar investindo em lançamentos de fácil comercio, como as revistas de fofocas de TV. Lamentável...

Os fanzines continuam sendo o porto seguro dos artistas, já que neles a democracia predomina e o público é direcionado. Muitos zines surgem a cada mês, mas a proposta de continuidade esbarra no custo de impressão e distribuição. Muito se fala em uma associação voltada para a divulgação e distribuição de fanzines, mas até agora nada de concreto foi feito. Pelo visto, até mesmo no meio underground a crise chegou.

Percebe-se perfeitamente que o artista brasileiro busca um lugar ao sol desde que sua arte agrade no meio onde ele convive. Os fanzines divulgam seus traços e ele passa a ser conhecido no udi grudi nacional. Surgem elogios, matérias e entrevistas nos zines segmentados e ele percebe que tem talento mas não tem espaço na terra. A conclusão que chegamos é uma só: O artista brasileiro trabalha mesmo é na expectativa de uma oportunidade no mercado americano. Lá eles são remunerados e os gringos já admitem reconhecer que o artista brasileiro tem talento e cumpre as regras do jogo.

Que podemos comentar sobre a participação das HQs nas bancas? Quase nada...Vale ressaltar que a editora Mythos que publica Tex, Zagor, dentre outros heróis, está com intenção de investir no quadrinho nacional. Vamos esperar para ver!
* Fabio Ramos é colaborador do blog, colecionador de gibis e jornalista free lancer.

8/03/2009

ENTREVISTA: Waldomiro Vergueiro

Especialista em histórias em quadrinhos, o professor Waldomiro Vergueiro é coordenador do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Segundo ele, o quadrinho brasileiro reflete a realidade urbana dos jovens das grandes cidades do país. Para ele, são os adolescentes de 13 aos 25 anos que mais lêem histórias em quadrinhos. Nesta ótima entrevista, ele nos mostra um pouco das suas idéias, seus conceitos e seus conhecimentos sobre o mercado de quadrinhos de um modo geral.

Por: Marcus Tavares

Que modelos e padrões de comportamento os quadrinhos brasileiros veiculam?
Vivemos num grande contexto globalizado, num grande sistema de comunicação interligado. Neste cenário, as histórias em quadrinhos veiculam modelos e padrões de comportamento que já são transmitidos pelas outras mídias, em todo o mundo. Tudo acaba se repetindo. No Brasil, o quadrinho reflete, de uma forma geral, a realidade urbana dos jovens das grandes cidades do país.

Como assim?
Os jovens são influenciados pela cultura pop, pela televisão e pelos meios eletrônicos. Uma realidade que, na verdade, não é tão diferente daquela que vivem os jovens de outros países. O que há de diferente em nossas histórias são algumas características e especificidades que dizem respeito a nossa cultura local, expressa, por exemplo, nos relacionamentos de amizade e de amor e na apresentação e definição dos grupos sociais.

Daí então o interesse das crianças pelos quadrinhos?
As crianças naturalmente gostam dos quadrinhos, se identificam com a narrativa. Afinal, a linguagem dos quadrinhos se aproxima muito do universo das crianças e também dos adolescentes. Felizmente, aqui no Brasil, temos uma forte produção infantil, basicamente assinada por Mauricio de Sousa que está facilmente disponível no mercado e ao alcance de boa parte dos leitores. A leitura é fácil e prazerosa. Se compararmos com a de outros países, a produção de quadrinho infantil brasileiro é bastante significativa.

Isso não se encontra mais em outros países?
Nos EUA, por exemplo, não se publica mais quadrinho infantil. Lá, as histórias são voltadas para os jovens. Mesmo tendo um mercado de quadrinhos infantis monopolizado, as revistas de Mauricio de Sousa respondem aproximadamente por 85% de tudo o que é produzido para o público infantil. O Brasil é uma exceção na América Latina em investimentos no setor.

O mesmo vale para os adolescentes?
O jovem acaba não tendo a mesma relação com os quadrinhos. Muitas vezes, ele acaba sendo chamado ou fisgado por outras mídias de uma forma mais persuasiva do que as crianças. Por outro lado também há poucos investimentos para este segmento. O mercado editorial para os adolescentes é marcado pelas produções estrangeiras. Os jovens que crescem lendo os gibis do Mauricio de Sousa quando chegam à adolescência não têm uma alternativa nacional. Ou seja, quando o leitor passa a 'fase da Mônica’, ele não encontra nada.

Por que isso acontece?
As tentativas não deram certo porque o predomínio das histórias em quadrinhos com base nos super-heróis e nas histórias norte-americanas é total. Este processo dá origem a um círculo vicioso. Os jovens que lêem os quadrinhos importados e que se formam na área acabam reproduzindo o mesmo formato e conteúdo. É difícil quebrar este movimento. Por outro lado, o próprio leitor jovem de hoje quer exatamente este tipo de material. Um material que é amplamente divulgado e reforçado pelas demais mídias. Chega o quadrinho do super-herói ao mesmo tempo em que são lançados o filme, o bonequinho e o desenho animado. As mídias se reforçam. Acaba sendo uma competição desleal para os produtos brasileiros. Os jovens de 13 aos 25 anos são os que mais lêem histórias em quadrinhos. As crianças lêem muito, mas não de uma forma intensiva quanto os jovens.

O professor deveria trabalhar o quadrinho com o mesmo rigor que usa o livro didático!

E nas escolas, as histórias em quadrinhos vêm ganhando espaço?
Já não sinto mais um preconceito, mas, sim, um estranhamento à introdução dos quadrinhos na sala de aula. Há uma falta de familiaridade. Muitos professores querem utilizar, mas não sabem como. O Núcleo de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicação e Artes da USP, tem trabalhado neste sentido, mostrando alternativas e caminhos para que os quadrinhos sejam utilizados de forma mais inteligente.

De que forma?
Acredito que os quadrinhos devam ser usados pelas escolas, de uma forma interdisciplinar, integrando várias disciplinas. O professor deve trabalhar o quadrinho com o mesmo rigor que usa o livro didático. Não acredito que exista limite para a utilização de quadrinhos na educação. Tudo depende da criatividade do professor.

Há um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados que determina mecanismos de proteção à produção de quadrinhos nacionais, incentivando a realização de obras e de projetos escolares. O senhor é a favor desta proposta?
Sou. Acredito que o caminho a ser adotado seja esse mesmo. Todos os países que baixaram leis de proteção tiveram êxito em suas propostas.

As histórias em quadrinhos, da forma como ainda conhecemos hoje, continuará a existir!

Outros países adotaram essa política?
Sim! A Argentina fez isso. A França e a Itália também trabalharam neste sentido. A proposta não vai colocar em xeque o que já existe, só vai acrescentar.

Qual é o futuro dos quadrinhos?
Estou convencido que o futuro dos quadrinhos é a segmentação de mercado. Quadrinhos específicos para públicos específicos. Quadrinhos para crianças, para meninas adolescentes, para meninas mais velhas... A Era dos Quadrinhos como meio de massa e produto de massa é coisa do passado. Com o advento das novas tecnologias, vamos ter o aparecimento de produtos híbridos, ou seja, quadrinhos que incorporam elementos da multimídia. Este é um caminho sem volta.

Chega-se a conclusão que o quadrinho em forma de papel tende a acabar?
De jeito nenhum. Acredito que as histórias em quadrinhos, da forma como ainda conhecemos hoje, continuará a existir.



7/24/2009

Editora Ática lança literatura em quadrinhos

Imagens de Luiz Gê

A Editora Ática está lançando quatro adaptações literárias em quadrinhos. Todas são de romances brasileiros. A programação da editora é lançar as obras ao longo do ano. A lista inclui "O Cortiço", de Aluísio de Azevedo (1857-1913), "O Guarani", de José de Alencar (1829-1877), "Memórias de um Sargento de Milícias", de Manuel Antônio de Almeida (1830-1861) e "Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto (1881-1922). Segundo a editora, os trabalhos serão produzidos por duplas:

"O Cortiço" - Texto de Ivan Jaf e desenhos de Rodrigo Rosa
"O Guarani" - Texto de Inav Jaf e desenhos de Luiz Gê
"Memórias de um Sargento de Milícias" - Texto de Ivan Jaf e desenhos de Tiago Lacerda
"Triste Fim de Policarpo Quaresma" - Texto de Luiz Antonio Aguiar e desenhos de Cesar Lobo

A coleção marca também a adiada volta de Luiz Gê às histórias em quadrinhos. O autor foi um dos principais nomes dos quadrinhos na década de 1980, à frente de revistas como a "Circo".

7/09/2009

Ronaldinho ganha versão em desenho animado

O jogador Ronaldinho Gaúcho, que virou personagem de Maurício de Sousa nos quadrinhos, ganhará também uma versão como desenho animado. A iniciativa é fruto de uma parceria entre a MSP e a GIG Itália. O primeiro capítulo de uma série de 52 episódios, com duração de 15 minutos, já está sendo produzido pelo italiano Giuliano Giovanni.
Inicialmente, todas as histórias serão baseadas nas aventuras do personagem dos quadrinhos. Os idealizadores do projeto esperam lançar a animação do craque em 3 de outubro deste ano, num festival em Cannes.
O personagem Ronaldinho Gaúcho foi criado por Maurício em 2005 e em menos de um ano ganhou publicações em mais de 20 países e centenas de produtos infantis lançados na Europa.

7/07/2009

50 anos de carreira do pai da Turma da Mônica

Para comemorar os 50 anos de carreira do pai da Turma da Mônica, uma exposição está relembrando a trajetória de sucesso do autor, desde as primeiras tiras de jornal até ele se tornar um dos autores de quadrinhos mais respeitados do mundo.

A exposição é dividida em duas partes. A primeira é uma verdadeira viagem no tempo, partindo do começo simples no escritório de Mauricio na Rua Barão de Limeira e mostrando, década a década, a evolução de seus personagens, dos seus traços e da sua empresa.

Os fãs podem conferir inclusive a primeira tira de Bidu e Franjinha, que originou esta carreira de sucesso.

A segunda parte da mostra é focada no lado artista de Mauricio de Sousa. Através da coleção de quadros e esculturas em que ele homenageia grandes mestres das artes, estão expostas releituras de Leonardo da Vinci, Rodin, Michelangelo, Degas, Cézanne, Caravaggio, além de algumas outras surpresas.

Cartunista retrata a decadência dos super-heróis






Super-homem barrigudo e encurvado, Homem-Aranha precisando de fralda geriátrica, Robin empurrando Batman em uma cadeira-de-rodas, Mulher Maravilha fumante, Thor beberrão e Aquaman vendendo iscas, dentre outras imagens. O cartunista italiano Donald Soffritti decidiu retratar estes e outros super-heróis em uma hipotética decadência. O livro 'Super-heróis: a Decadência' traz o futuro imaginado por Soffriti para os ídolos dos quadrinhos e dos cinemas.










7/06/2009

ENTREVISTA: Eduardo Manzano

Eduardo Manzano é um daqueles raros artistas em que a sensibilidade flui espontaneamente. Através de sua visão rica em detalhes, seus textos caíram no gosto do público e sua legião de fãs pelo Brasil cresce rapidamente. Com um bom gosto invejável, um estilo pessoal refinado e com traços marcantes, Manzano vem se destacando cada vez mais no cenário underground. Nessa entrevista concedida ao amigo Carlos Henry para o nosso blog, ele fala sobre como começou a gostar de quadrinhos, sobre seus trabalhos, suas influências, seus projetos, sobre o cenário das HQs, dentre outros assuntos. Confira o bate-papo:

Por: Carlos Henry

Você tomou contato com as HQs através de uma coleção dos seus pais. O que eles liam?
Isso foi quando eu tinha seis anos e comecei a aprender a ler. Meus pais compravam gibis para eles e para mim. Geralmente era algo da Disney, Turma da Mônica ou Asterix. Meu gostava muito de Diabolic, Tex e Ziraldo. Eu lia tudo também e a partir daí, nunca mais parei.

Mudou alguma coisa hoje em dia?
Hoje em dia eles lêem muito pouco. O estilo agora é mais livros.

Pelo que fiquei sabendo, seu avô também trouxe uma certa influência para você...
É verdade. Meu maior incentivador mesmo foi o meu avô, que me deu a maior força nos desenhos desde o início. Por ele ser uma pessoa muito culta, tomei gosto pela literatura. Pena tê-lo perdido muito cedo.

Nos Fanzines eu Sou Uma Bosta Respeitada!

Qual a opinião deles sobre seus trabalhos?
Eles gostam e curtem muito meus trabalhos. Meu pai acompanha mais de perto, já que minha mãe não mora conosco. Ele curte os zines. Outro dia demos boas risadas quando ele disse: “ Você dá diversas entrevistas e é respeitado nos fanzines, mas nas editoras você não é bosta nenhuma”. Pelo menos em algum lugar eu sou uma bosta respeitada.

Seu estilo era meio cartum e você decidiu deixá-lo de lado para se dedicar a outro traço. Por que?
Basicamente decidi deixar de lado o estilo cartum e procurar algo mais complexo, pela necessidade de desenvolvimento artístico e de expressão. Isso se deu após tomar contato com os trabalhos do Alan Moore e Neil Gaiman. A procura por um traço próprio também pesou muito. Mas uma vez ou outra faço trabalhos com outros estilos.

Por exemplo...
Em meus trabalhos para a editora que exerço como free lancer, faço ilustrações infantis.

Você já publicou em zines de Portugal, Itália, Uruguai e Estados Unidos. Quais as exigências que eles fazem?
No exterior, publiquei quando eu mesmo enviei o material para as publicações de lá ou quando eles entraram em contato comigo após terem visto algum material publicado nos zines daqui.

Como foi a receptividade dos seus trabalhos nesses países?
A repercussão foi restrita ao público underground. Eles têm uma mentalidade um pouco mais profissional que a nossa. Lá os fanzines são sérios e respeitados. Trabalham com divulgação e tem até cooperativas e pequenas editoras que publicam os zines para os autores. Em alguns países no qual meu trabalho foi publicado, os editores me escreveram dizendo que receberam diversas cartas elogiando as minhas HQs. Inclusive elas deveriam sair em alguma coletânea com melhor material gráfico.

Essas HQs enviadas aos Estados Unidos não tem nada de super herói...
De jeito nenhum. São minhas HQs realistas mesmo.

Não é Porque Temos Liberdade de Expressão Que Devemos Encher os Fanzines de Porcarias!
Muitos autores têm feito HQs filosóficas mas de conteúdo vazio. O que pode ser feito para mudar este gênero e evoluir com qualidade?
Esta é uma questão delicada, já que os zines estão abertos a todo tipo de trabalho, seja bom ou não. No caso das HQs filosóficas, existem pessoas que desenvolvem um trabalho muito legal, a exemplo do Edgard Franco, Gazy Andraus, Rosemário, Al Greco e Erika Saheki. Porém, muitos usam-se da máxima que fazem trabalhos “subjetivos” e infestam os zines com todo tipo de porcaria possível. Acho que cabe aos leitores peneirar os garatujistas, dando espaço a quem realmente tem algo a dizer.

Quais os melhores e piores deste gênero?
Os maus exemplos estão aí e são muitos. É só conferir nos zines. Não é porque temos liberdade de expressão que vamos atolar os fanzines com porcarias. Bom senso nunca é demais. Mas tem muita gente boa também, além dos que já citei, poderia incluir o Luciano Freiberger, Nuno Nisa, Luiz Alves e Diogo Henrique.

Como tem sido a receptividade dos leitores ao seu trabalho?
Tem sido maravilhoso. Desde que lancei o meu novo estilo, tenho participado de muitos zines e dado diversas entrevistas. Hoje já posso dizer que tenho um nome respeitado dentro do circuito. Tenho feito muitos amigos também, pois em primeiro lugar vem a amizade a honestidade mútua.

Qual a importância dos fanzines no meio underground?
Tenho pregado uma evolução de nossos zines, tenho divulgado um trabalho de conscientização dos editores, visando uma melhora nas publicações e consequentemente, aumentar sua sobrevivência. No meu trabalho, tenho a preocupação de levar ao leitor um material com argumentos fortes e bons desenhos, o que tem ganho o respeito de todos que lêem. Só tenho a agradecer as cartas que recebo com apoio.

Muitos editores argumentam que os zines têm que ser mau xerocados, bagunçados e descompromissados. Qual sua opinião?
Não concordo. Os zines devem procurar uma evolução dentro dos seus parâmetros e no que se delimita underground. Devemos levar em consideração nossa realidade econômica e pensar que gastar dinheiro com algo descompromissado e mau feito é pura utopia. Com excessão é claro, daqueles que possam custear tal aventura por mero passatempo, o que creio não é o caso de 99% de nós. Devemos crescer e mostrarmos nossos trabalhos para puxar cada vez mais pessoas para nosso lado. Assim sendo, podemos abrir os olhos dos culturalmente alienados a mudar aquela velha história dos zines brasileiros: Lançam 2 ou 3 números e param.
Quais quadrinhistas lhe influenciaram?
Procuro mostrar uma identidade própria nas minhas HQs, mas como minhas maiores influências, posso citar nos desenhos Dave Gibbons, Boris Vallejo, Emir Ribeiro, Watson Portella, Brian Bolland e Magnus. Nos argumentos, Allan Moore, Neil Gaiman, Will Eisner, Roy Thomas, Pat Mills e Hernandez Brothers.

Dá para ganhar dinheiro com seus traços?
Eu tenho meu trabalho, mas também ganho algum dinheiro como free-lancer para alguma editora ilustrando material de bandas e dando aulas de desenho.

Como tem visto o cenário atual da HQ nacional?
Enquanto imperar na cabeça dos leitor que o material importado é melhor que o nosso, pouca coisa irá mudar. Temos ótimos artistas aqui, melhores até que os de lá. Deve haver entre editores e artistas, uma discussão que traga resultados. Acho também que os zines podem conseguir essa união.