8/03/2010

Velhos reclamões



Por: Fernando Lopes


Tenho percebido uma coisa muito interessante participando de discussões sobre quadrinhos na net: estou ficando velho! Mais do que isso, estou ficando um velho muito reclamão. E não estou sozinho.

Pertenço a uma geração privilegiada, que acompanhou um dos melhores momentos dos quadrinhos americanos: os anos 80. Foi uma década rica em verdadeiras obras-primas, daquelas que certamente estão entre as top 10 de qualquer gibiota que se preze: V de Vingança, Cavaleiro das Trevas, Watchmen, Batman: Ano Um, A Piada Mortal, Sandman, Orquídea Negra, Asilo Arkham e outras preciosidades. Isso sem mencionar revistas de linha com tesouros como o Demolidor de Frank Miller, X-Men por Chris Claremont e John Byrne, Novos Titãs por Marv Wolfman e George Pérez, Homem-Animal de Grant Morrison, Monstro do Pântano por Alan Moore e Steven Bissete e outras pérolas do gênero. Esse é o meu referencial.

A década de 90, porém, chegou trazendo novos nomes e novos quadrinhos. E alguma coisa se perdeu. Não quero aqui cair no lugar comum de malhar o fenômeno Image. Fiquei reclamão mas continuo detestando clichês. E malhar Jim Lee, Todd McFarlane e (principalmente) Rob Liefield virou o esporte preferido dos fãs de comics. Uma constatação, porém, é inevitável: os quadrinhos, particularmente os americanos, já viveram dias muito melhores.

Mas ainda temos bons quadrinhos. A segunda metade desta década tem sido menos ingrata que a primeira. Vimos surgir obras memoráveis como Marvels e O Reino do Amanhã. Nomes como James Robinson, Kurt Busiek, Mark Waid, Peter David, Garth Ennis e outros ganharam merecida projeção. As HQs se renovam e sobrevivem, ainda que sem o brilho da década passada. Talvez aí é que esteja o problema.

Minha geração ficou mal acostumada. Tivemos uma overdose de bons quadrinhos. Obras de valor insuperável, que figuram entre as melhores lembranças de nossa juventude e que, ainda hoje, mostram o invejável fôlego das coisas bem feitas. Ficamos exigentes demais. Acho que, no fundo, quando criticamos a atual fase dos comics americanos, estamos criticando não apenas um trabalho mas o próprio tempo, que insiste em nos tornar nostálgicos. Talvez, bem lá no fundo, estejamos apenas tentando resgatar nossa própria juventude perdida.


*Fernando Lopes é jornalista

7/26/2010

Unesco lança gibis

Seis gibis publicados pela Unesco debatem temas como homossexualidade, DSTs e gravidez na adolescência. Num clima informal, os personagens das histórias contribuem para uma orientação saudável para os leitores. As HQs foram lançadas em parceria com o Governo Federal para distribuição nas escolas públicas de todo o país. O projeto da Unesco tenta ir direto ao ponto e colocar assuntos delicados em pauta. Fazer isso com gibis faz parte da proposta de tratar de temas sociais em formatos mais modernos e abrangentes. O roteiro ágil contribui para o bom resultado da empreitada.

7/23/2010

Marvel divulga capas sobre lendas vampirescas




A Marvel divulgou quatro capas das edições especiais sobre vampiros, que serão lançadas. Elas fazem parte de uma série feita em homenagem ao Dia das Bruxas.

Os super-heróis vão viver histórias baseadas nas melhores lendas vampirescas de todos os tempos.

7/21/2010

Ziraldo inaugura exposição

O quadrinista, chargista e cartunista Ziraldo, inaugurou sua primeira exposição de acrílicos sobre tela. A exposição está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, do Rio de Janeiro e a mostra foi batizada de "Zeróis: Ziraldo na tela grande".

Motivado por amigos, Ziraldo deu início à produção sobre tela com a transposição de cartuns de super-heróis que fizeram sucesso no passado. Logo, começou a brincar também com os heróis da pintura, fazendo releituras de Picasso, Velázquez e Goya, entre outros. No total, estão expostas 44 telas.

7/07/2010

Mulher Maravilha ganha novo visual

Aos 69 anos, a Mulher Maravilha chega à edição de número 600. Para comemorar, a DC Comics resolveu dar de presente a ela um uniforme mais prático e moderno.

Agora, as pernas de Diana não ficarão mais à mostra, já que o mini-shorts de estrelas foi substituído por uma calça escura super colada. O modelo das botas também mudou e elas são da mesma cor da calça.

Além das pernas, o artista Jim Lee, decidiu cobrir os ombros da heroína com uma jaqueta azul.

Os cabelos, que já foram longos, agora estão mais curtos e repicados nas pontas, dando um ar jovial.

De acordo com J.Michael Straczynski, o novo roteirista da história em quadrinhos, a ideia é trazer a super-heroína mais para o século 21, já que sua roupa não mudou muito desde sua estreia, em 1941.

7/05/2010

A arte dos brasileiros no mercado americano


Por: Wellington Srbek*

Não é apenas através de revistas nacionais que os desenhistas brasileiros têm chegado às bancas. Depois de se tornarem a mão de obra barata preferida pelas editoras americanas, os desenhistas nacionais estão se fortalecendo como profissionais.

A lista de brasileiros desenhando para o mercado americano é bastante extensa e, a cada dia é mais comum encontrar-se nos créditos de uma HQ, um nome brasileiro em sua versão americanizada. Um dos pioneiros da invasão tupiniquim dos quadrinhos de super-heróis foi Mark Campos ( Marcelo Campos ), que desenhou as revistas da Liga da Justiça. Infelizmente em seu trabalho para a DC Comics ele não mostrou o mesmo talento que revelou ter na série Quebra Queixo, publicada na revista Pau Brasil.

Depois de Campos, vieram outros que se adaptaram melhor às exigências do mercado norte-americano, justamente por serem capazes de transformar seus desenhos de acordo com o estilo mais popular daquele país, que é o super-heróis. O caso exemplar é o Roger Cruz ( Rogério Cruz ), o plagiador mais competente do estilo americano Joe Madureira. Tendo alcançado bastante sucesso com a série X-Men e com HQs para a Image Comics, e inclusive fez uma ótima parceria com Joe Bennet em uma HQ do Surfista Prateado.

José Benedito destacou-se com a série Ravage 2099, na qual mostrou um traço dinâmico, que explorava o contraste preto e branco. No especial De Volta a Era de Apocalipse, Joe Benneti nos brindou com desenhos que misturam elementos do estilo Jim Lee e Joe Madureira.

Em se tratando de mercado americano o desenhista brasileiro com melhor desempenho é Mike Deodato, cujo o trabalho nós acompanhamos na revista Marvel 98 e muitas outras vieram depois. Filho de um renomado quadrinhista brasileiro, Deodato conseguiu se estabelecer com seu estilo pessoal, transformando personagens como Mulher Maravilha e o Poderoso Thor em sua marca registrada de sucesso.

Embora exista uma dezena de desenhistas brasileiros trabalhando para editoras americanas, a verdade é que nenhum deles cria os roteiros das HQs, que chegam as suas mãos já traduzidas. O argumento da barreira linguística não cola. A verdade é que as editoras americanas só estão interessadas em mão de obra barata e que aceite prazos sufocantes e se adapte facilmente aos estilos deles.

* Wellington Scbek é estudioso de quadrinhos e colaborador de diversos zines que circulam pelo país.

6/09/2010

Entrevista com Erica Awano

Por: Pedro Brandt

Quando começou o seu interesse por histórias em quadrinhos?

Eu costumava ler quadrinhos japoneses. Havia grande quantidade desses volumes pois era hábito entre os imigrantes japoneses trazer essas publicações para que os filhos mantivessem contato com a língua japonesa. Acho que comecei com esse interesse por volta dos sete ou oito anos e não conseguia ler as histórias. Isso só veio bem mais tarde quando aprendi a decifrar os ideogramas. Até lá, o que eu fazia era olhar as imagens e imaginar o que acontecia na trama.


Sempre pensou em se tornar desenhista de quadrinhos?

Sempre quis trabalhar com alguma coisa relacionada a desenhos e a literatura. Gostava muito de ler e herdei uma afinidade com desenhos que, me parece, existia desde meus avós.


Como começou a sua trajetória nos quadrinhos?

Por acaso havia essa febre em cima dos desenhos animados japoneses. Por conta disso, publicações específicas sobre quadrinhos e animações japonesas começaram a aparecer nas bancas. Eu escrevi uma carta para a revista Animax com uma ilustraçãozinha e, em dois dias, o editor chefe da revista, o Sérgio Peixoto, ligou para a minha casa após encontrar meu telefone na lista. Ele também era o presidente de um dos únicos clubes sobre mangás e animes em São Paulo e reunia todo o fim de semana não só jovens ávidos pelas últimas novidades em animação como também um grupo de desenhistas, então amadores, para trocarem experiências e dicas de desenho. A minha primeira aparição em banca foi na revista Megaman, baseada num jogo de videogame. Mas eu só assumi a idéia de fazer quadrinhos profissionalmente a partir da revista Street Fighter Zero, projeto que foi roteirizado e editado pelo Marcelo Cassaro, editor da então Dragão Brasil e futuro parceiro na Holy Avenger, que se tornou meu trabalho mais conhecido.


Qual a sua formação acadêmica?

Eu sou formada em Letras pela USP.


Saber desenhar e saber fazer quadrinhos são coisas diferentes. Como foi o seu aprendizado para fazer quadrinhos?

Eu não sei, tenho certeza que parte disso veio das minhas visitas ao acervo de mangás na casa da minha avó. O Marcelo Cassaro, roteirista da Holy Avenger, é um profissional premiado, apesar de nossas formações diferentes, ele cresceu lendo comics e eu mangás, eu posso dizer sem medo de errar que eu aprendi muita coisa a respeito de quadrinhos como um todo através dele.Muitas meninas não lêem quadrinhos porque as temáticas das HQs são, geralmente, masculinas.


Você acredita que isso justifica o número reduzido de meninas leitoras e, consequentemente, produzindo HQs?

Acredito que esse fato justifica grande parte da questão sim. Eu sou uma prova disso e consigo contar nos dedos das mãos quantos títulos de quadrinhos americanos já li. Mas acho que também tem o fato de não haver interesse em mostrar opções para esse público feminino. Eu vejo as propagandas dentro dos mangás e não vejo nenhuma que aproveite o perfil do público leitor, quero dizer, qual a vantagem de colocar um anúncio de um quadrinho cheio de tios bombados e tias peitudas num quadrinho para garotas? Não quero dizer que garotas não curtiram histórias de super heróis, mas eu não consigo ver como uma garota possa enxergar uma boa história só olhando para as capas dessas edições.


Você acredita que o mangá ajudou a trazer mais meninas para os quadrinhos?

Com certeza. Os mangás são produções altamente segmentadas, eles têm um público específico, não é como no ocidente on existe o infantil, juvenil e adulto. Há mangás para adolescentes de ambos os sexos, para jovens adultos, donas de casa, gays, empresários, esportistas, sobre tudo que é tipo de assunto e abordado segundo o interesse do público alvo. Também tem a vantagem de que não é preciso ler 60 anos de quadrinhos para saber o que está acontecendo na história. Quando um quadrinho japonês acaba, ele acaba.

Quem você diria que são as suas principais influências tanto no mangá quanto em outros tipos de quadrinhos?

Eu cresci lendo mangás, só li meu primeiro quadrinho americano na faculdade e depois de muita, muita relutância, a saber, foi o Sandman, do Neil Gaiman. Quanto ao meu gosto, eu gosto de histórias que falam sobre histórias, lendas, que misturam o folclore com eventos cotidianos. Não tem muitos títulos assim hoje em dia, mas eu costumava ler XXX Holic e Mushishi, os dois misturam aventuras fantásticas com elementos do folclore japonês. Sobre influências, não sei se existe alguma em especial, eu sou especialmente preguiçosa no que se refere a decifrar o estilo de outros artistas, acho que ao invés de gastar meu tempo tentando ser outra pessoa, é mais fácil tentar ser eu mesma.


Qual o seu conselho para as meninas que querem começar a fazer quadrinhos?

Bom, se é com finalidade recreativa, fanzines, eles são um excelente exercício. Eles proporcionam não só a parte do fazer como também a parte do sujeitar-se ao julgamento dos outros. Se o interesse é profissional, realmente atuar na área, seria bastante salutar procurar a opinião de um profissional. Eu não sou uma pessoa que levanta a bandeira do "leia quadrinhos", acho que não dá pra forçar alguém a ler, ou a gostar de ler, acho que a única coisa que eu acho importante no que se refere ao assunto é que, mesmo que você nunca leia um quadrinho na sua vida, isso não quer dizer que sejam ruins ou inferiores. Claro, tem muita coisa que poderia muito bem nunca ter sido publicada, mas tem muitos livros nessas condições também, então, mantenha sempre a mente aberta. Os quadrinhos podem ser uma porta de entrada para um mundo muito maior.


Você está trabalhando atualmente na série Alice. O que está achando a experiência?

Eu trabalho para uma agenciadora chamada Glasshouse Graphics. Um dia eu recebi uma proposta através dela para fazer um teste para Alice e embora eu achasse que não seria escolhida, já que a adaptação é fiel ao livro, portanto não deveria estar ligada a mangá e eu só trabalho nesse estilo, mas acabei sendo chamada. Desenhar Alice é muito divertido, pelo menos eu acho. Tem muita coisa ali que eu nunca desenhei antes e outras tantas que eu gosto de desenhar. Pra mim, fazer esse quadrinho é um presente! Os livros são fantásticos, a adaptação feita pelo casal Leah Moore e John Reppion é muito bem feita e cheia de detalhes engraçados nem sempre ligados ao quadrinho em si.


Qual tem sido o feedback para o seu trabalho?

Até onde eu sei, a repercussão sobre Alice está sendo boa lá fora. Não sei o que está sendo dito por aqui já que é uma publicação estrangeira, mas de vez em quando alguém me manda uma mensagem me dando os parabéns e para dizer que esperam ansiosos pela publicação do título no Brasil.


E quais serão os seus próximos trabalhos?

Ah, isso só vou saber quando terminar Alice.

6/07/2010

HQs políticas do Irã ganham versão em português




Por: Fernanda Mena

Em Teerã, uma história em quadrinhos de temática política que virou sensação na internet, ganha versão em português.
"O Paraíso de Zahra" conta a história de uma mãe em busca do filho, desaparecido após um protesto contra as eleições de junho de 2009 que mantiveram o presidente Mahmoud Ahmadinejad no poder.
A graphic novel é criada em tempo real, como uma novela na internet, e sua autoria é mantida sob anonimato. Isso porque o roteirista iraniano, identificado apenas como Amir, e o desenhista árabe, Khalil, têm medo de que seus familiares no Irã possam sofrer represálias do governo.
O enredo de "O Paraíso de Zahra" é inspirado na história da estudante Neda Soltan, morta com um tiro no peito durante um desses protestos, em junho de 2009.
A cena foi toda filmada e correu o mundo via YouTube em poucas horas para depois chegar aos jornais e à TV como símbolo dos abusos do atual regime iraniano.
A instantaneidade com que a internet revelou ao mundo o que os aiatolás tentam esconder deu a Amir e Khalil a ideia de criar uma história em quadrinhos que usasse o mesmo recurso para o mesmo fim.
Quando for finalizada, em agosto de 2011, a história ganhará versão em papel. No Brasil, o livro será publicado pela editora Leya.

6/01/2010

Humor sutil


Por: Diogo Bercito

Enquanto brasileiros como Ivan Reis e Eddy Barrows brilham no mercado norte-americano desenhando para a DC Comics, há talentos nacionais voltados para o outro lado do Atlântico.

É o caso de Ricardo Manhães, que já publicou sua dezena de gibis no mercado franco-belga em que HQ se chama BD, do francês "bande dessinée".

O artista que hoje mora em Florianópolis, apaixonou-se por quadrinhos aos oito anos de idade, quando passou uma temporada na França acompanhando seus pais que estudaram por um período no país.

Os traços simples e o tom humorístico dos gibis europeus, famosos por meio dos quadrinhos do Tintin, ganharam o rapaz, que adotou o estilo para seu trabalho.

Ricardo Manhães, desenha hoje, entre outros projetos, o Gothic Girl, que, com humor sutil, faz troça dos adolescentes góticos. Acima, alguns de seus trabalhos.

5/11/2010

Um salto de respeito na cena indie

Por: Júlio Ibelli

Quando os quadrinhos e rock compartilham as páginas de uma revista, ou ilustram a seção de tiras de um jornal, o que se vê na maioria das vezes é uma baciada de estereótipos: os homens são escrotos, gordos e porcos, cheios de piercings e tatuagens, e as mulheres, avoadas e sempre dispostas à uma transa fácil. Enfim, exemplares dos dois sexos inadequados à sociedade, sempre metidos nas aventuras mais sem pé nem cabeça jamais vistas. Existem alguns resquícios desse comportamento de risco, mas são espécies à beira da extinção. Para quem houve rock, sobreviver na selva de concreto nos dias de hoje não é mais ter uma camiseta preta com uma estampa do Iron Maiden, e andar com o cabelo comprido e uma calça jeans toda rasgada pelo centro das grandes cidades. Até os apaixonados por um som mais pesado não vem dispensando o uso de um Adidas no pé e um agasalho com algumas listras. Ser roqueiro hoje em dia é ter a rebeldia de um punk com todo o jogo de cintura de um intelectualóide como Fernando Henrique Cardoso. Não deve ser a toa que a cena independente brasileira vive uma nova era de esperança desde o mandato do nosso ex-presidente. Se você está completamente por fora da atual cena roqueira nacional, infectada pelo cenário independente - o único vírus do bem já identificado - um bom primeiro passo para começar a se atualizar é a revista Mosh! (Gibiteca Editora, 32 páginas, R$ 3), uma compilação do que há de melhor nos 'quadrinhos indie' do Rio de Janeiro. "A revista foi criada para ser vendida em casas noturnas e shows, em situações em que tudo que você menos quer é ter uma revista na mão. Sendo assim ela foi criada no formato de bolso, para não virar um transtorno", explica Sandro Lobo, editor da revista. Com impressão e papel de primeira qualidade, muito diferente do que costuma-se observar no primeiro número de um fanzine por exemplo, é quase um pecado reclamar do preço que a publicação é vendida. "A Mosh! não é um fanzine, onde jovens desenhistas treinam seus talentos", diz Lobo. Mas sim uma revista em quadrinhos especializada em música, com uma preocupação editorial, de conteúdo, impecável, "acredito que seja fruto da maturidade dos autores [a clareza das imagens e desenhos]", emenda Lobo. Você já está obsoleto se pensa que quadrinhos são só a Turma da Mônica e os heróis anabolizados, com capas e cuecas por cima da calça.

Vinícius Mitchell, 23, cartunista cujos trabalhos costumam freqüentar diversos salões de humor no Brasil, inaugura a Mosh! com 'The Helveticas'. Na história ele reivindica aos indies aquilo que à eles pertence: o culto antes secreto, reservado à grupos não muito numerosos, de bandas que não estão no catálogo das gravadoras 'majors', e que vem chamando a atenção de um número cada vez maior de pessoas de fora do mundinho independente. Essas bandas usufruem inclusive do poder de divulgação de um canal de televisão aberto por exemplo. Vendidos!, é o que grita indignado o protagonista. Em seguida vem 'The Cirrose Rock Band' para contestar tudo o que foi escrito nas linhas acima, com dois carinhas bem freak falando um monte de palavrão e comentando dos melhores show do mundo na opinião deles, em que asas de morcego são arrancadas com a boca em pleno palco, pintinhos são esmagados com botas cheias de espinhos e páginas da bíblia servem de papel higiênico. Mas percebam que até mesmo esses dois personagens tem topetes, uma barbicha e um piercing discreto na sobrancelha. Destaque para a letra da música que os dois tocam quando resolvem formar uma banda para parecerem com seus ídolos: 'O peido é o rock das pregas!! O peido é o rock das pregas, baby!!'.

Quem chega na seqüência é a sensacional 'Menina Infinito', de Fabio Lyra. Com essa história a Mosh! cumpre a sua missão de retratar fielmente a cena indie, sem clichês preconceituosos. Tudo contribui para o sucesso da história: o ritmo da narrativa, a falta das cores, o traço todo estiloso de Fabio, cenário, ângulos e até o figurino dos personagens, há camisetas para todos os gostos, Nine Inch Nails, Stereolab, Primal Scream. O enredo é muito bem bolado, confirmando a máxima, 'gosto não se discute, lamenta-se'. 'One Show Bands' fecha a revista ensinando que o importante é ter uma banda de rock, não importando sob quais circunstâncias. Mas não acaba por aí. Há ainda uma entrevista com os Autoramas, queridinhos da cena, e a coluna 'Comic Riffs', onde Heitor Pitombo mostra para o público um exemplo do humor escrachado que não é de intenção da Mosh! realizar. No segundo número os entrevistados serão do grupo carioca em ascensão Jimi James. "Acredito que temos um veículo que interesse às bandas", explica Lobo. Pelas páginas da revista também aparecem alguns anúncios de sebos, bandas e livros lançados de forma independente, alem de um anúncio de página inteira da famosa Bunker, casa de tradição roqueira carioca. "Sem dúvida nenhuma os contatos foram fundamentais, mas as pessoas só embarcaram porque acreditaram no projeto, no conteúdo editorial da publicação", explica Lobo, editor da revista junto de Renato Lima. Lobo também acumula a função de diretor de arte, barrando o que julga não ser apropriado para ser publicado. Renato também desenha ao lado de Vinícius, Lyra e de um outro Fábio, de sobrenome Monstro, que é descrito no site da revista como sendo 'a maior besta devoradora de cachorro-quente de porta de show'. Pode acreditar, sou testemunha disso. Quando pergunto ao Lobo se a Mosh! seria uma resposta à banalização de todo o hype criado em torno do cenário independente, ele me responde sem entender muito a questão, mas todo convicto: "A Mosh! não foi criada como forma de protesto. Foi criada da vontade dos desenhistas em fazer quadrinhos e falar de rock'n'roll. Não pretendemos que a Mosh! seja um produto ideológico. Como os autores da revista curtem músicas do cenário independente, decidimos fazer histórias para esse público". E parecem ter acertado em cheio.

5/07/2010

Perversão em Quadrinhos


Por:Leonardo Maia


A publicação `Hentai - A sedução do mangá´ traz uma visão histórica e crítica do fenômeno artístico

O bizarro, como seres surreais, aparece nas cenas de sexo!

O fascínio pela cultura pop japonesa tem crescido a olhos vistos. Se antigamente os produtos que traziam samurais e lutas marciais se colocavam na linha de frente, hoje os mangás e animês são o principal produto de exportação da arte nipônica. Um subgênero erótico do mangá, o hentai (que significa pervertido), tem público cativo no Japão e seu prestigio cresceu no Brasil.

Os primórdios do mangá datam do século XII, com as primeiras separações nítidas entre texto e pintura. O desenho aparecia com maior destaque que os textos, algo que ainda é regra geral no mangá moderno. A partir da Era Edo (1615-1868), os trabalhos se popularizaram, ainda como estampas independentes, trazendo uma única ilustração. Nesta época, já surgiu o primeiro filão erótico de ilustrações, conhecido como shunga, que podia ser vendido - ainda que de forma velada - como folhas avulsas ou em forma de livros.

Mas o fenômeno dos mangás como são conhecidos hoje, ocorreu a partir da década de 50. Hoje, essas revistinhas, que são lidas de trás para frente, chegam a tiragens de até um milhão de exemplares, tendo o Brasil e os Estados Unidos entre os maiores mercados. E o hentai segue como importante vertente, com um público específico e explorando desde o filão mais soft, chamado de ecchi, até os mais pesados como futanari (com hermafroditas), kemono (com animais) e ero-guro (com cenas de estupro, sexo bizarro e escatologia), passando por aqueles que preferem retratar garotas e garotos jovens (lolicon e shotacon, respectivamente).

Mesmo com uma imagem recatada e rígida, a sociedade japonesa é uma das que mais consomem produtos pornográficos, desde hentai até filmes eróticos e jogos eletrônicos pornôs. E os diversificados - e muitas vezes politicamente incorretos - temas explorados pelos hentai mostram que não há limite para a imaginação nipônica. Os mangás eróticos são considerados como válvula de escape para as fantasias do povo japonês que, se não costuma extravasar a sexualidade em ambientes públicos, pode assim fazer com os quadrinhos pornôs. E, mesmo quando tratam de temas problemáticos, como incesto, estupro e pedofilia, os criadores costumam justificar o trabalho como algo que não sai do papel, servindo inclusive como modo de evitar que tais atos ocorram na vida real.

Como bem ilustra o manual, o hentai - também conhecido como ero-mangá e h-mangá - se caracteriza por retratar os órgão sexuais masculino e feminino em tamanhos bem maiores do que o normal. Grande parte das imagens, porém, é publicada de modo distorcido ou com tarjas, devido à censura que se aplicou no Japão ao gênero, logo após a sua popularização. A Associação de Pais e Mestres, temerosa com a influência dos mangás eróticos entre as crianças, exige que o pênis e a vagina não sejam mostrados de modo explícito e que os pêlos pubianos não sejam representados. Estas restrições provocam conseqüências como a reprodução dos seios em tamanhos por vezes surreais (para compensar a omissão da vagina) e o rejuvenescimento dos personagens, por conta da ausência de pêlos, aludindo à pedofilia. Vale ressaltar que isso inclui apenas a produção elaborada para o mercado japonês, pois o material exportado não atende a essas exigências. Isso acaba alimentando o setor clandestino e também favorece a internet, que está recheada de imagens do gênero.

Convenções das fantasias

Um dos capítulos mais interessantes de Hentai - A sedução do mangá é Convenções do hentai mangá, que apresenta algumas das regras gerais que são seguidas pelos desenhistas. Numa rápida lida, já dá para perceber a tendência: mesmo que o gozo seja primordial, a posição da mulher tem que ser submissa. A sociedade japonesa é conhecida por ser especialmente patriarcal e machista e, como não poderia deixar de ser, os hentai mangás refletem isso. As personagens do sexo feminino aparecem, muitas vezes, em posições e situações humilhantes, atendendo a fetiches masculinos, vestidas de professoras, empregadas, enfermeiras e colegiais.

Para começar, a convenção número um já diz que todas as mulheres que aparecem nas histórias são bissexuais ou pelo menos vão descobrir que são, caso sejam expostas a essa situação. O homossexualismo, quando retratado, é quase sempre entre mulheres. Mais à frente, afirma-se que estupro não existe no hentai, pois, mesmo forçada, a mulher passa a apreciar e "até começa a pedir mais". Independente do tamanho do órgão sexual masculino, ela vai agüentar a dor do coito e ficará, inclusive, contente. Ao pegar o marido praticando adultério, geralmente aceita e até se junta aos dois. Já o homem é retratado sempre como um ser forte, dominador, com pênis gigante, capaz de ejacular quantas vezes for necessário e de "satisfazer de três a dez mulheres de uma só vez". A recorrência indiscutível de todo hentai é o ato sexual, como deixa claro a última das convenções: "E, finalmente, quaisquer personagens, a qualquer hora, em qualquer hentai mangá, farão sexo".


Dos quadrinhos para o cinema

Saindo dos quadrinhos para o cinema, o filme de Jonah Hex conta a história de um pistoleiro caçador de recompensas com metade do rosto deformado, que vive aventuras sangrentas no Velho-Oeste. Josh Brolin é o protagonista, enquanto o vilão, um praticante de vudu que pretende formar um exército de mortos-vivos, é interpretado por John Malkovich. Temos a participação da maravilhosa Megan Fox no papel de Leila, uma garota com habilidades com armas que será o caso amoroso do feioso. No elenco ainda participam Michael Shannon e Will Arnett. O filme tem estréia prevista para agosto deste ano. A distribuição é da Warner.